Aritmética impossível
Existe uma ilusão que é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo: entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate.
Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena. A entrada na sala, o olhar cruzado, e a promessa de algo transcendente. Veio com ela a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez.
Mas conhecer é uma faca de dois gumes. Entre dois mundos separados por abismos invisíveis, a afinidade intelectual não basta para construir uma ponte. O velho sonho renasce no susto de uma postagem, no sobressalto de uma palavra dita, na tentativa vã de domesticar o futuro e armazenar o que é, por natureza, apenas sopro.
E a tecnologia, que prometeu encurtar distâncias, acabou por revelar o fosso intransponível.
A separação não era apenas geracional. O que afasta dois mundos não são os anos, e sim as ligas invisíveis do poder: o dinheiro que dispensa certas lutas, e a experiência que só existe para quem calçou botas em estradas mais ásperas e aprendeu a escrever o roteiro com o próprio sangue.
Não se trata de mérito de ninguém. Trata-se de que duas biografias construídas sob condições tão distintas raramente encontram vocabulário comum, e o que parecia afinidade era, em boa parte, tradução.
O amor que pulsava desfaz-se como névoa diante da conta bancária e do CEP. E a velha soma de esperança revela-se como sempre foi: uma aritmética impossível.
Tentou-se esticar a linha do tempo, e ela rompeu-se sob o peso da realidade.


