Talismãs
Houve um tempo em que a esperança parecia caber em uma trama de algodão egípcio. Olhar para aquela camisa branca pendurada era, para mim, como contemplar um estandarte de guerra, uma armadura tecida com a promessa de que eu, finalmente, seria alguém digno de ser amado. É ela, pensei, é ela que me fará conquistá-la.
Naquela época, eu não comprava roupas. Eu comprava talismãs para esconder a minha própria nudez existencial.
O preço daquela ilusão foi obsceno. Uma transação que ignorava a lógica e o salário, alimentando-se apenas da minha urgência em pertencer. O relógio suíço, que cruzou o oceano como se trouxesse consigo uma nova era, ficou retido na alfândega, como se o próprio tempo me desse um ultimato: não és digno da minha marca. Quando finalmente envolveu o meu pulso, ele não me trouxe status. Trouxe o peso morto de três meses de liberdade confiscada e uma vergonha que eu não sabia onde esconder.
Eu era um náufrago em 2006, cavucando o solo árido da internet atrás de um mapa que me levasse para fora de mim. Fugia do escárnio de quem ridicularizou a minha camisa social de tecido plástico, aprendendo cedo a lição mais cruel: para ser aceito, eu precisava primeiro me odiar. O estilo que me venderam era, na verdade, um exílio. Fui me desfazendo em pedaços emprestados, moldando um boneco de argila ao gosto do desejo alheio.
O jarro caiu. A água escorreu. E a vergonha molhou o chão sem dar tempo para o perdão.
No banco de trás do carro, o meu grito foi a única testemunha da minha queda.
Hoje as cicatrizes falam mais alto que a vergonha. Percebo que o estilo nunca esteve na fibra do algodão nem no movimento das engrenagens suíças. Ele estava na dignidade que restou depois do despojo.
Talvez eu não tenha conquistado o mundo que desejava aos vinte anos. Mas fui inteiro no meu fracasso.


