A defesa que entrega o jogo
Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim:
Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante.
Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás.
E, somadas, elas entregam o jogo.
Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado.
Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis.
E quando você defende alguma coisa exclusivamente pelos efeitos colaterais, você já aceitou a regra do adversário: a de que aquilo precisa produzir resultado mensurável em outro domínio para ter direito de existir.
Escrevi, em outro lugar, sobre o dia em que perguntei a uma turma de sétimo ano o que achavam das aulas de Artes. Responderam que não consideravam importante. Anotei, no meu relatório, o meu espanto com o pragmatismo daquelas crianças de doze anos.
E escrevi que o desafio do meu estágio era levar o aluno a reconhecer a beleza da arte além da perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente.
Um tempo depois, escrevi doze páginas defendendo o teatro pela utilidade dele.
Não é hipocrisia. É o que acontece com quem escreve dentro de instituições.
A linguagem dos projetos, dos relatórios e dos editais exige justificativa por resultado. Habilidade desenvolvida, competência adquirida, indicador atingido. Quem escreve nessa língua todos os dias, como eu escrevo, acaba defendendo tudo desse jeito, inclusive as coisas que existem justamente por não servirem para nada.
E há um problema prático nisso, que não é filosófico.
Se o teatro está na escola porque desenvolve habilidades socioemocionais, então no dia em que aparecer um programa que desenvolva as mesmas habilidades em menos tempo e com menos custo, o teatro sai.
E vai sair, porque a régua já foi aceita.
A única defesa que sustenta é a que não pede desculpa: o teatro está ali porque um ser humano precisa de coisas que não servem para nada, e uma escola que só ensina o que serve está formando alguém preparado para produzir e despreparado para viver.
Isso não cabe em campo de formulário.
E é por isso que quase ninguém escreve, inclusive eu.


