A ansiedade como resultado
No meu mestrado, medi a ansiedade tecnológica de 446 servidores diante do sistema eletrônico de ponto.
Dois resultados apareceram, e os dois foram confirmados estatisticamente.
Quanto maior a ansiedade, menor o uso do sistema.
E quanto maior a ansiedade, maior a percepção de dificuldade para usá-lo.
Também apareceu, na análise por subgrupos, que as servidoras relataram níveis um pouco mais altos de ansiedade que os servidores.
Escrevi, na conclusão, que esses achados destacam a necessidade de suporte técnico e treinamento adequados para mitigar esses sentimentos e facilitar a transição para o novo sistema.
Ou seja: encontrei ansiedade e recomendei tratá-la para que a adesão aumentasse.
Hoje eu leio de outro jeito.
A ansiedade não era o obstáculo do estudo.
Era o resultado dele.
Um instrumento que registra eletronicamente a que horas cada servidor entra e sai, implantado por recomendação de órgãos de controle, produziu apreensão em uma parte considerável de quem passou a ser registrado.
Isso não é falha de compreensão do usuário. É uma resposta proporcional e inteligente a uma mudança real na relação entre a pessoa e a instituição.
Antes, a jornada era algo que se cumpria. Depois, passou a ser algo que se comprova.
Quem sente ansiedade diante disso entendeu o que aconteceu.
E eu chamei aquilo de barreira à aceitação.
Preciso registrar por que essa leitura me atinge de um jeito particular.
Escrevi, ao longo de vinte anos, dezenas de textos sobre ansiedade. Descrevi como ela nasce na garganta, no limiar entre o dito e o não dito, e desce para o estômago. Escrevi, num relatório acadêmico, em letras maiúsculas, que eu havia travado diante de uma tarefa.
Passei a vida conhecendo aquilo por dentro.
E, quando encontrei o mesmo fenômeno num conjunto de 446 pessoas, medido com escala Likert e coeficiente de caminho, eu o classifiquei como variável a ser reduzida.
O que os modelos que eu usei fazem muito bem é prever adoção.
O que eles não têm campo para registrar é a possibilidade de que a recusa esteja certa.
Não estou dizendo que o ponto eletrônico não deva existir. Trabalho no serviço público, sei o que motivou aquela implantação, e conheço os argumentos de controle e de isonomia, que não são frívolos.
Estou dizendo que havia um achado dentro do meu próprio dado que eu não soube ler.
Quatrocentas e quarenta e seis pessoas responderam sobre como se sentiam sendo medidas.
E eu usei aquilo para recomendar como medi-las melhor.


