Corredores de autorregulação
Escrevi, no meu trabalho de conclusão de licenciatura em Teatro, que muitas escolas da região onde atuo se estruturam sob uma estética que se assemelha à de uma prisão.
Listei o que se vê: muros altos, vigias armados, grades nas janelas, portões de ferro, câmeras de videomonitoramento, portas de vidro.
E escrevi uma expressão que eu não inventei, apenas registrei: corredores de autorregulação.
É assim que se chama, em algumas escolas, o espaço para onde vai o aluno que se descontrolou.
Repare no nome.
Ele não diz corredor de castigo, nem sala de contenção, nem lugar onde a gente põe quem atrapalhou a aula. Diz autorregulação, que é uma palavra do vocabulário socioemocional, das competências, dos documentos de formação integral.
O aluno é retirado da sala e levado a um corredor, e o corredor tem nome de habilidade que ele deveria estar desenvolvendo.
Escrevi, noutro texto, que a escola chama de descaracterizado o aluno que está sem uniforme, e que a palavra diz literalmente privado de características.
E escrevi que o vocabulário de gestão absorve qualquer crítica e a devolve como boa prática: escuta vira instrumento de engajamento, autonomia vira competência a ser desenvolvida.
Corredor de autorregulação é o exemplo mais completo que eu já encontrei.
Ali, a linguagem do cuidado foi aplicada ao dispositivo de contenção, e o resultado é que ninguém precisa mais discutir se contenção é o certo. O nome já resolveu.
Preciso registrar duas coisas para não ser desonesto.
A primeira é que essa arquitetura tem causa. Escolas públicas em bairros de periferia foram assaltadas, invadidas e depredadas. Muro alto e câmera existem porque alguém, em algum momento, precisou proteger crianças e equipamento. Quem trabalha nessas escolas não escolheu aquilo por gosto de vigiar.
A segunda é que eu trabalho numa instituição com muro, portão, catraca e câmera. Não estou descrevendo a casa dos outros.
E aqui está o que me chama atenção, relendo o que escrevi.
Nesse trabalho eu consegui criticar a arquitetura da instituição onde trabalho. Descrevi o muro, o vigia armado, a grade, a câmera, e disse que aquilo prende corpos.
Noutro trabalho, quando propus analisar como o poder é distribuído entre as pessoas daquela mesma instituição, saiu material de divulgação: ambiente acolhedor, busca constante pela excelência, instituição renomada.
A diferença entre os dois textos não é de coragem.
É que o muro não me devolve o olhar na reunião de segunda-feira.


