O nome do goleiro
Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol.
Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição.
Reli o trabalho agora.
O nome do goleiro não aparece uma única vez.
Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”.
O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha.
Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o que ele disse, sobre o que aconteceu com ele depois, sobre como aquilo afetou a vida dele.
Ele existe no meu texto apenas como o destinatário do insulto.
E a torcedora tem três parágrafos.
Escrevi que ela perdeu o emprego, perdeu a vida social, sofreu ameaças de morte e, nas minhas palavras, perdeu a dignidade. Escrevi que ela foi humilhada de várias formas. Escrevi que o racismo não nasceu nela, que a sociedade a formou assim e depois a puniu.
Tudo isso pode ser discutido, e voltarei a isso.
O que me interessa aqui é a contabilidade.
Num trabalho sobre uma agressão racista, o agressor recebeu três parágrafos de análise psicológica e social, com nome de sofrimento e detalhe de consequência.
E o agredido recebeu um substantivo com adjetivo pátrio.
Eu com vinte e nove anos pensando o racismo.
Um homem foi chamado de macaco diante de um estádio e de um país inteiro.
E, no trabalho que eu escrevi sobre o assunto, ele não tem nome.
Ele se chama Aranha.
Registro aqui, porque é o mínimo.


