• Pólis & Gestão

    Funcionários do sagrado

    Assumir a responsabilidade de guiar outras pessoas na fé exige um nível de clareza que não nasce do nosso próprio intelecto. Sem uma luz que venha de fora para iluminar a nossa pequenez, ficamos cegos diante do peso da vocação. E a consequência dessa cegueira é fatal: tornamo-nos meros funcionários do sagrado. O espírito esfria, a gratidão desaparece e o amor transforma-se em discurso vazio. Quem perde a capacidade de agradecer já esqueceu o que significa amar. O maior inimigo dessa clareza não é a falta de conhecimento teológico, mas o egoísmo. Ele cresce de forma silenciosa, alimentado pela vaidade e por uma perigosa ilusão de autossuficiência. O líder que…

  • Filosofia & Teologia

    O meio-fio

    Era o aniversário da igreja Assembleia de Deus no bairro São João Batista, em Vila Velha, provavelmente no ano de 2007. Meu amigo Douglas Pinheiro pastoreava aquela pequena congregação, auxiliado pelo então presbítero e hoje pastor Joabe. Recebi o convite para pregar por dois dias: na noite de sábado e na manhã de domingo. Naquela noite de sábado, a igreja estava cheia. Enquanto ministrava a palavra, um senhor entrou. Seus passos vacilantes e a maneira como se dirigiu ao último banco denunciavam o estado em que estava. Sentou-se perto da porta de saída e começou a proferir palavras aleatórias, frases soltas que logo se tornaram um foco de distração. Percebi…

  • Filosofia & Teologia

    O próprio reflexo

    O pecado atravessa o tempo e o espaço, alcançando a todos, sem distinção de classe, lugar ou circunstância. Ele surge de inúmeras formas, adaptando-se ao coração humano, moldando-se aos desejos e fraquezas de cada época. Nos dias de Isaías, o pecado era como uma sombra que pairava sobre Judá, envolvendo desde os líderes até os cidadãos comuns. A corrupção se infiltrava na política, nas relações sociais, e até nos rituais religiosos. Isaías enfrentava o desprezo e a incompreensão ao denunciar o que estava fora do lugar, ao expor as rachaduras da sociedade. Mesmo sem sucesso aos olhos do mundo, permanecia fiel, pois entendia que sua missão era fazer com que…

  • Artes & Narrativas

    A marcha lenta

    Eu tinha entre dezessete e dezoito anos, no bairro Primeiro de Maio. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja. Saímos, e meu coração pesou. A história começara uns dois anos antes. Ela era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Naquele tempo não havia professor para a Escola Bíblica Dominical. Escolheram-me, não por vocação, mas por falta de opção. Eu, adolescente, dava aula a adolescentes. Por lealdade e pudor, redobrei o cuidado com as meninas da minha idade, distância…

  • Filosofia & Teologia

    Círculo de Oração

    Cresci no Evangelho. Desde as minhas primeiras lembranças, minha mãe pertence ao Círculo de Oração. Foi nesse ambiente que fui formado: entre vozes de mulheres simples, mas cheias de Deus, que se reuniam para interceder quando muitos sequer sabiam o que era oração. Quando eu tinha por volta de cinco anos, o poder de Deus era visível na vida da minha mãe. Lembro-me nitidamente de uma tarde na Assembleia de Deus em Estrelinha, perto do campinho. Eram por volta das quinze horas. Minha mãe, junto com outras irmãs, estava no Círculo de Oração. Havia no ar um peso de glória, uma atmosfera de poder que permanecia depois do culto. De…

  • Filosofia & Teologia

    Paz, meu jovem

    Quando nos mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, eu estava no início da adolescência. Comecei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Primeiro de Maio (PIBPM). Depois da primeira visita, continuei indo: às vezes na Escola Bíblica Dominical, outras nos cultos de meio de semana e nos domingos. Quase parecia já um membro. Aos poucos, porém, fui deixando de ir. Tínhamos uma vizinha chamada Eni, casada com o Seu Francisco, a quem chamávamos, com carinho, de Titico. Ambos já idosos à época, por volta dos sessenta e poucos. Eni era uma senhora bonita, de pele clara, cabelos grisalhos, mais para o branco do que para o preto, e…

  • Artes & Narrativas

    Outro costume, a mesma procura

    Primeiro de Maio, 1996 — Pedra dos Búzios, Vila Velha. Mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, e por alguns dias ficamos sem reunir. Meu pai seguia pastor pela CADEESO, mas já não estávamos no antigo ministério, a Assembleia de Deus no Alagoano, aquela que ele mesmo fundara e entregara ao pastor Manoel Samora. Foi um breve silêncio de igrejas, um intervalo entre um rebanho e outro. Não demorou e uma menina, um pouco mais velha do que eu, apareceu com um convite: “Vamos à Primeira Igreja Batista do Primeiro de Maio?” Morávamos na Alameda Caboclo Tamandaré; a igreja ficava ao fim da alameda, à direita. Pedi permissão aos…

  • Filosofia & Teologia

    A igreja viu

    Eram dias de festa na Assembleia de Deus no Bairro Grande Vitória, Congregação do Ministério da Volta do Rabaioli. A igreja estava cheia, as pessoas transbordavam alegria, e os bancos estavam repletos de fiéis prontos para celebrar. Meus pais, como sempre, estavam presentes. Papai, discreto, escolhia um lugar próximo à porta. Eu, doente e impossibilitado de andar, estava no colo de minha mãe. Naquele tempo, minha realidade era marcada por limitações físicas causadas por uma meningite que tinha me atingido severamente. Minhas pernas não firmavam, e a dor na coluna era constante. A cabeça de criança não compreendia a gravidade da situação. Para mim, a vida de internações, hospitais e…

  • Filosofia & Teologia

    O barracão

    Pastor Sebastião, marido da irmã Nelza, presidia uma igreja independente chamada Assembleia de Deus Ministério Ide, no bairro Primeiro de Maio. Conhecíamos o pastor Sebastião desde antes, quando meu pai pastoreava uma igreja na mesma rua, que mais tarde se fundiria ao Ministério de Jardim Colorado. Minhas lembranças mais marcantes com o Ministério Ide remontam aos idos de 1997, quando seu templo ainda era um simples barracão de tábuas, erguido no meio do canal que dividia os bairros de Primeiro de Maio e Pedra dos Búzios. Minha primeira visita ao barracão foi marcada pela simplicidade. O culto era modesto, previsível, quase sem movimento. Poucas pessoas estavam ali, e o ambiente…

  • Filosofia & Teologia

    Ele já preparou tudo

    O templo do Ministério Ide cresceu, ganhou corpo e expressão. Os filhos do pastor Sebastião também cresceram, acompanhando o desenvolvimento daquela obra. Após a morte do meu amigo, o pastor responsável pela igreja que ficava na mesma rua decidiu mudar-se para outro município, um deslocamento motivado pelo impacto do ocorrido. Com isso, a igreja que ele liderava foi fechada, e aquele espaço tornou-se um vazio. Naquela época, meu pai pastoreava uma igreja em Vila Batista, mas o peso do aluguel tornou-se insustentável. Ele buscava em oração e discernimento entender os caminhos que o Senhor desejava que trilhássemos. A saída do pastor da igreja vizinha ao Ministério Ide foi vista por…