Educação & Cuidado

A Lente Relacional. Orientação, acolhimento, aprendizado. Este é o pilar voltado para o outro. É a categoria da instrução, da empatia, da cura e da formação de indivíduos. Abarca seus papéis de: Professor, Pastor e Conselheiro. O que entra aqui: Práticas de ensino, metodologias de educação (como o homeschooling), reflexões sobre cuidado pastoral, textos sobre saúde emocional, mentoria de vida e artigos sobre o desenvolvimento humano.

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    O Cascalho

    Brincar com meu primo Rafael era uma das maiores alegrias da minha infância. Era um dia como tantos outros no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Estávamos ao lado da banheira velha que usávamos como “mar”, um pequeno oceano alimentado pela nossa imaginação. A banheira ficava perto do muro que fazia divisa com a casa do Rafael, e aquele pedaço de quintal, com seu chão de cascalhos, restos de reboco e lajotas, era o cenário perfeito para as nossas brincadeiras. Tudo ia bem até que algo, não me lembro exatamente o quê, desagradou o Rafael. Ele ficou irritado e partiu para cima de mim com ofensas. Fui pego de…

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    E tenho uma novinha

    Lembro com clareza do dia em que meu pai chegou em casa com uma bicicleta Monark verde e preta, novinha em folha. Ela era linda, brilhava à luz do sol. Mas havia um desafio: aprender a pedalar. No quintal de nossa casa, no bairro Grande Vitória, o chão era coberto de areia. Um terreno improvisado, mas perfeito para as primeiras lições. Meu pai, com sua paciência inabalável, dedicou-se inteiramente à tarefa de me ensinar. Segurava firme o banco da bicicleta enquanto eu tentava me equilibrar. A areia, com sua maciez, transformava cada queda em algo mais parecido com uma brincadeira do que com um tombo. Caía sem medo, rindo das…

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    Vovozinha

    Era uma manhã comum. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça e vi meu pai sair do quarto. Ele segurava os sapatos nas mãos, vestido de roupa social, mas desfeito. Sentou-se no sofá, ali na minha frente, e começou a…

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    Jesus Menino

    Quando criança, passei um tempo significativo internado. Ao lado do Hospital Infantil de Vitória, havia um lugar cujo nome iluminou meu espírito: o Hospital Jesus Menino. O nome parecia uma promessa. Jesus Menino… Como poderia um lugar chamado assim não ser bom? Na minha imaginação infantil, Jesus, o menino, era como eu, pequeno, frágil, mas capaz de acolher, capaz de me entender. A primeira vez que minha mãe me contou que ficaria internado, o semblante dela carregava tristeza e preocupação. Nos olhos dela, a aflição de não poder fazer mais por mim, de não poder trocar de lugar comigo. Quando chegamos ao hospital, porém, algo em mim brilhou. O nome…

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    O único a aparecer

    Em minha adolescência, um dos lugares que mais amava frequentar era o Vitória Futebol Clube, um espaço que se tornou uma extensão da minha casa. Foi lá que me conectei com a natação, uma prática que abracei por dois ou três anos, graças ao programa da Secretaria de Esportes da Prefeitura de Vitória. As pessoas me conheciam ali, e essa familiaridade me fazia sentir pertencente, mesmo quando o mundo adolescente parecia solitário. Além da natação, por um breve período, me aventurei na musculação, mas foi na piscina que vivi meus melhores momentos. Recordo-me de dias frios, quando a água parecia congelar a pele e a coragem era testada. Mesmo assim,…

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    Por terceiros

    Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa: Daniel, Ana Paula, Aline e Keila. Keila era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial. Aline seguiu outro rumo, tornou-se empresária no ramo de supermercados e material de construção. A vida a levou a construir estruturas, enquanto a Keila passou a proteger as mesmas ruas onde um dia brincamos. Ana Paula se tornou médica. E Daniel, cujo caminho exato me escapa, foi o amigo que mais me acompanhou nas aventuras do cotidiano. Depois da infância, nossos laços se afrouxaram, as visitas cessaram, e cada um tomou seu rumo. Nunca mais tive contato direto,…

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    Ele cumpriu a promessa

    As tardes na rua eram repletas de risadas, correria e improvisos. Em frente à nossa casa, um espaço entre a minha e a dos meus tios Zeco e Maria, montávamos nossa “arena”. Ali, travinhas improvisadas e uma turma que hoje em dia ficou guardada mais na memória afetiva do que nos nomes. Mas alguns não se apagam: Rafael, meu primo; Josué; Gessé; Whashiton; e Lila. Lila era um garoto branco, magro, que frequentemente jogava sem camisa. Era habilidoso, mas, por vezes, passava dos limites. Lila deu uma entrada dura no Rafael e começou a zombar dele. Rafael, retraído, parecia intimidado. Não suportei a visão do meu primo sendo alvo de…

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    O anel de plástico

    As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus pais, mas suas histórias e seu jeito nos levavam a imaginar que ela era rica. Hoje, sei que isso era apenas fruto de…

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    Adolfina

    Era 1999, e eu estava na turma da então 8ª série da EEPG Adolfina Zamprogno. Sentava na frente, ao lado da Simone, uma menina inteligente e de conversa agradável. Havia muitos colegas que marcaram minha vida: Márcio, que até certo ponto era meu “melhor amigo”, morava em Vila Garrido, numa casa à beira do morro, de onde se podia ver uma parte do bairro Pedra dos Búzios. Estive lá uma única vez. Havia também o Wilson, o Alexsandro Melo, o Wadvan, a Tasciana, o Paulo Rogério, o Renan, e outros nomes que o tempo levou. Alexsandro Melo era um menino que se destacava. Ele tocava pandeiro como ninguém, e sua…

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    Renato

    Renato era o nome dele, meu colega de sala na primeira série do primeiro grau. Lembro-me de sua presença infantil, simples, tão parecida com a minha. A infância é um espaço de descobertas, mas também de ilusões, onde acreditamos que a vida é um fio inquebrável, imune às tragédias. Mas, em 1991, essa ilusão se desfez de forma abrupta e dolorosa. Foi em um dia qualquer, em casa, quando ouvi alguém falar, provavelmente minha mãe: “Renato morreu.” A frase, direta e sem alívio, me atingiu com um peso que eu, criança, não sabia carregar. Ele havia sido atropelado. Estava na rua principal do bairro Grande Vitória, pegando “ponga” na traseira…