Educação & Cuidado

A Lente Relacional. Orientação, acolhimento, aprendizado. Este é o pilar voltado para o outro. É a categoria da instrução, da empatia, da cura e da formação de indivíduos. Abarca seus papéis de: Professor, Pastor e Conselheiro. O que entra aqui: Práticas de ensino, metodologias de educação (como o homeschooling), reflexões sobre cuidado pastoral, textos sobre saúde emocional, mentoria de vida e artigos sobre o desenvolvimento humano.

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    Cara de campus

    Escrevi, no meu diário de estágio supervisionado em Licenciatura em Teatro, que a escola em que estava fazendo estágio não tem cara de escola. Tem cara de campus. O prédio não foi pensado para abrigar crianças ou adolescentes. Foi construído para abrigar uma faculdade de cursos da área da saúde, com estudantes adultos que pagavam mensalidade e que atravessavam aqueles corredores para aprender a operar corpos. Quando o Estado assumiu o espaço e instalou ali uma escola pública de tempo integral, fizeram-se adaptações. Pintou-se. Ajustou-se. E, no meu parecer de estagiário, aquilo não foi suficiente para que o lugar tomasse jeito de escola. Está esteticamente bem cuidado. E não alcança…

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    A oficina que enlata

    Assisti a uma entrevista com Mestre Calú, mamulengueiro, e escrevi uma resenha. No meio dela, sem perceber que estava fazendo uma objeção séria, escrevi isto: A oficina é o lugar apropriado para transmitir essa responsabilidade. Porém, a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva. É um tempo programado especialmente para aquilo, entrando, querendo ou não, numa matriz curricular. E desse modo a arte torna-se um pouco enlatada. Enlatada. Foi a palavra que me veio, e ela está certa. O mamulengo não se aprendia em oficina. Aprendia-se olhando, no engenho, depois de um dia inteiro de trabalho braçal, com um mestre que brincava a noite toda e um menino ao lado…

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    Sapatilha de ponta

    Em um projeto de curso de dança que desenvolvi, a aula cinco era sobre ballet clássico. Escrevi que exploraríamos os princípios do ballet, como postura, alinhamento e técnicas de ponta. E que faríamos exercícios de barra e de centro, desenvolvendo a técnica e a graciosidade do movimento. Sessenta minutos. Turma de sexto ano. Escola pública. Trabalho de ponta é uma das coisas mais exigentes que existem na dança. Exige anos de preparo anterior, força de tornozelo construída aos poucos, e maturação óssea que nem toda criança de onze anos alcançou. Uma professora de ballet responsável leva anos decidindo quando uma aluna pode subir na ponta, e às vezes decide que…

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    Um continente numa aula

    Escrevi um projeto de curso de dança para uma turma de sexto ano. Dez aulas, uma por semana, de junho a agosto. A aula quatro chamava-se “danças folclóricas do mundo”. E o conteúdo previsto era este: aprendizado de dois movimentos típicos e dos aspectos culturais que envolvem a Hula e as danças africanas. Hula e danças africanas. Uma coisa é a dança de um arquipélago específico, o Havaí, com nome próprio e tradição rastreável. A outra é um continente com cinquenta e quatro países. Coloquei as duas lado a lado, como se fossem itens equivalentes de uma lista, e reservei sessenta minutos para as duas. Sou coordenador adjunto do núcleo…

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    O nome do goleiro

    Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol. Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição. Reli o trabalho agora. O nome do goleiro não aparece uma única vez. Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”. O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha. Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o…

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    Cor, CEP e fé

    Até 2008, o preconceito econômico e racial era, para mim, uma teoria distante. Uma realidade que girava o mundo e que ainda não havia esmagado os meus ombros. Eu caminhava amparado pela segurança da minha própria identidade, alheio à sensação asfixiante de ser rotulado por características que me são tão naturais quanto respirar. Ao ingressar em uma instituição de ensino, descobri da pior forma que a discriminação não habita apenas as calçadas. Ela prolifera, com requintes de sutileza, exatamente naqueles espaços que deveriam servir como santuários do desenvolvimento humano. Foi dentro daquela redoma, onde eu ingenuamente esperava encontrar pluralismo, que a parede invisível do elitismo colidiu comigo. As marcas do…

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    A rocha da decisão diária

    O cenário contemporâneo nos lança em um labirinto quando o assunto é o namoro e o casamento. Nos tempos bíblicos, as diretrizes eram pautadas por costumes pragmáticos: dotes, idades mínimas, arranjos parentais. Hoje a mecânica mudou drasticamente, e a essência não sofreu um milímetro de alteração. Pureza, respeito e fidelidade continuam sendo o alicerce para quem deseja alinhar a própria vida à soberania divina. O namoro e o noivado estão longe de ser vitrines de exibição. São laboratórios de preparo. O namoro não existe para saciar emoções fugazes, e sim como estágio para o compromisso definitivo. Exige, portanto, zelo para evitar intimidades precoces que geram fraturas e nos distanciam do…

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    Sem cláusulas de rescisão

    Amar é, antes de tudo, um ato de criação. O matrimônio é o solo onde duas pessoas desbravam a plenitude de um mistério: unir, dentro da mais absoluta diversidade, aquilo que nasceu para ser uno. É ali que o sentimento deixa de ser espasmo de desejo e se consolida como promessa. Cada decisão é um tijolo assentado nessa arquitetura. A cultura insiste em enxergar a vida a dois exclusivamente como abrigo, refúgio acolhedor contra as intempéries. Ela o é, de fato, e é também uma forja, onde a vaidade e o orgulho são exorcizados pelo fogo do afeto real, e onde se aprende a disciplina de abdicar da própria vontade.…

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    Obesidade de informações

    Quem partilha da minha rota conhece o meu vício mais enraizado: a paixão por aprender. Não falo da absorção rasa e utilitarista de informações que a modernidade nos empurra goela abaixo. Refiro-me ao aprendizado vertical, àquele mergulho em que cada texto é dissecado para pavimentar a construção de um saber denso. E, sim, eu leio muito, mas a maturidade me ensinou uma verdade dura: volume não é sinônimo de profundidade. É vital ler bem, de forma combativa, atacando as palavras com a fome de quem deseja desvendar a espinha dorsal daquilo que se oculta nelas. Foi no meio dessa busca que uma recomendação ouvida no programa do professor Olavo de…

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    Encolher-se para caber

    “Comece a ser agora o que você será daqui em diante.” A frase, atribuída a São Jerônimo, atravessa os séculos como um ultimato. Ela convoca a inaugurar, sem a covardia dos adiamentos, a própria transformação. Não existe atalho para o amadurecimento que não exija abraçar o instante presente, cientes de que a colheita de amanhã é refém da semente de hoje. O amadurecimento é a pedagogia do risco, e exige doses iguais de humildade e ousadia. Abraham Maslow formulou a encruzilhada com precisão: pode-se escolher voltar para a segurança ou avançar para o crescimento, e o crescimento precisa ser escolhido repetidas vezes, assim como o medo precisa ser vencido repetidas…