Educação & Cuidado
A Lente Relacional. Orientação, acolhimento, aprendizado. Este é o pilar voltado para o outro. É a categoria da instrução, da empatia, da cura e da formação de indivíduos. Abarca seus papéis de: Professor, Pastor e Conselheiro. O que entra aqui: Práticas de ensino, metodologias de educação (como o homeschooling), reflexões sobre cuidado pastoral, textos sobre saúde emocional, mentoria de vida e artigos sobre o desenvolvimento humano.
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Aproximação e afastamento
Enquanto eu observava aquela escola, a disciplina me pedia que eu estudasse como se observa uma escola. Havia um questionário. Uma das perguntas queria que eu listasse as marcas da pesquisa do tipo etnográfico, a partir de Marli André. Respondi com sete itens, copiando fielmente o que o texto dizia. Reli aqueles sete itens quatro anos depois e levei um susto. Escrevi que a etnografia permite perceber as situações de encontro e desencontro da rotina escolar. E, nos meus diários, eu havia registrado dois alunos sentados sozinhos numa biblioteca, sem interagir com ninguém nem entre si, que eu chamei de ilhas afastadas. Escrevi que a etnografia permite reconstruir a linguagem…
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Aula 01: café
O cronograma tem cinquenta linhas. Da aula dois em diante, é o que se espera de um curso de teatro: possibilidades do corpo, danças populares, consciência corporal, linguagem postural, voz em harmonia com o movimento, improviso, roteiro, cenário, figurino, jogo de luz, quatro ensaios gerais e a apresentação. A primeira linha é outra coisa. Aula 01, 28 de junho de 2022: apresentação do projeto e coffee break especial com dinâmica de apresentação. A primeira aula é um café. Eu tinha acabado de passar meses observando aquela turma. Alunos de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, na Grande São Pedro, numa escola de tempo integral, dentro de…
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O plano
Depois de meses observando aquela turma, eu tive que projetar um curso para ela. Cinquenta encontros, dois por semana, de junho a dezembro de 2022. Cem horas de teatro para o 7º Ano 1 da Escola Viva de São Pedro. Dezessete meninas e catorze meninos, entre onze e catorze anos, de famílias com renda per capita abaixo de meio salário mínimo. Reli o plano meses depois e descobri uma coisa que não percebi enquanto escrevia: cada peça dele responde a alguma coisa que eu tinha anotado nos diários. O objetivo geral do projeto é este, e está escrito assim: promover a participação de todo o grupo nos exercícios e apresentações,…
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Me assustei
Na conclusão do meu relatório de estágio obrigatório, escrevi uma frase que hoje me parece a mais importante do documento inteiro: Em um primeiro momento me assustei com a realidade da sala de aula. Eu tinha trinta e sete anos. Havia começado a pregar ainda menino, em lugares simplórios, e já enfrentava púlpito havia mais de duas décadas. Dava aula. Coordenava equipe. Falava em público com regularidade, diante de gente adulta, sobre assuntos que exigem que ninguém se distraia. E entrei numa sala com trinta adolescentes de sétimo ano, na condição de observador, sem ter que ensinar nada, e me assustei. Não escrevi ali do que exatamente. Hoje eu tentaria…
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De onde vem essa convicção
Entrevistei alunos de uma escola durante um estágio supervisionado. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Disseram que não tinham muito interesse, porque não consideravam a disciplina importante. Anotei no relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles. E então escrevi, no meio de um documento acadêmico, uma pergunta que eu não sabia responder: De onde vem esta convicção pragmática em alunos tão novos? Eram meninos e meninas de doze, treze anos. E eles já sabiam, com segurança, qual conhecimento vale e qual não vale. Ninguém nasce sabendo isso. Não existe criança que chegue ao mundo hierarquizando saberes por utilidade. A convicção de que Artes é secundária…
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Talvez possa ser caracterizado
Um menino saiu da biblioteca porque uma menina e dois meninos ficaram zoando o desenho que ele havia feito. Foi isso que aconteceu, e eu vi. E foi assim que eu registrei no meu diário de estágio: Nesta aula presenciei um momento que talvez possa ser caracterizado como bullying. Talvez. Possa. Ser caracterizado. Três atenuações numa frase de doze palavras, para descrever uma criança abandonando uma sala porque outras três riram do trabalho dela. Eu sei de onde vem esse jeito de escrever. Sou servidor público há quase vinte anos e instruo processos. Aprendi, por ofício, que caracterizar errado tem consequência, que adjetivo em documento vira prova, e que quem…
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Ilhas afastadas
Naquela aula na biblioteca, com as mesas redondas e o professor passando de grupo em grupo, eu vi duas pessoas que ninguém viu. Dois alunos sentaram-se isoladamente. Ninguém interagia com eles. Eles não interagiam entre si. O professor não interagiu com eles. Escrevi no diário: eram ilhas afastadas. E acrescentei o detalhe que torna aquilo insuportável: eles fizeram os exercícios propostos. Em momento nenhum solicitaram a presença do professor nem a de outro aluno. Fizeram a tarefa. Corretamente. Sozinhos. Em silêncio. E ninguém precisou olhar para eles nem uma vez. Existe um tipo de invisibilidade que a escola sabe enxergar. É a do aluno que atrapalha, que fala alto, que…
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A vista que ninguém olha
A sala de Artes na escola onde fiz o estágio supervisionado em Teatro é boa. Tem televisão grande, quadro branco, aparelho de som, ar-condicionado, ventilador, bancadas próprias para desenho, pias para lavar material e uma sala anexa que serve de estoque. As paredes são pintadas com desenhos de vários estilos, feitos para conversar com adolescentes. Anotei no diário que o ambiente era limpo, arejado, criativo e inspirador, e que provocava uma ânsia de criar. E anotei outra coisa, numa frase que passou despercebida até para mim. A sala tem uma vista privilegiada, que percebi não ser apreciada nem pelo professor nem pelos alunos. Do outro lado daquela janela está a…
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Sessenta cores
O professor me contou, durante o estágio na Escola Viva em São Pedro, que havia comprado uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta cores para um aluno. O menino sonhava com aquela caixa. A família não podia comprar. Então o professor comprou. Anotei o episódio no diário e escrevi, logo em seguida, que ele havia se envolvido emocional e economicamente na realidade social do aluno. E acrescentei uma ressalva: que essa proximidade pode ser boa ou ruim, dependendo de como as relações se desenvolvem. É uma frase correta. É o que se ensina em qualquer formação sobre vínculo profissional. É o que eu diria hoje a um…
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Descaracterizado
No primeiro dia em que acompanhei a turma em meu estágio supervisionado, o professor precisou se ausentar e uma professora de outra disciplina ficou com os alunos. A tarefa era copiar slides sobre grafismo. Ninguém copiou. Passaram a aula interagindo entre si. E eu anotei três frases no meu diário. Percebi que um aluno estava descaracterizado. Ele não estava de uniforme. Percebi que ninguém ligava para ele, e que ele fazia o que queria. Foi só isso. Escrevi as três frases e passei para o item seguinte. Levei quatro anos para reparar na palavra que eu havia usado. Descaracterizado é o termo administrativo. É assim que se diz, no vocabulário…





























