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Mapear as próprias limitações
Existe uma condição essencial para provarmos da graça de forma genuína: precisamos ter a coragem de olhar para dentro. Sem um profundo conhecimento de quem somos, e da presença silenciosa de Deus em nosso interior, a vida espiritual não passa de uma teoria vazia. O primeiro passo dessa jornada é o golpe mais duro contra o nosso orgulho: reconhecer que, por nós mesmos, somos insuficientes. Tudo o que conseguimos reter nas mãos não é mérito exclusivo nosso, mas um empréstimo contínuo do Doador. Quando reconhecemos essa dependência, nasce uma gratidão limpa, sem as amarras da arrogância. E é dessa gratidão que brota uma paciência muito específica, capaz de transformar até…
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Aquilo que retemos por medo
Nós gostamos de acreditar que estamos no comando. Organizamos nossos dias, antecipamos as crises e carregamos o peso das nossas responsabilidades como se o mundo fosse parar de girar caso soltássemos as rédeas por um segundo. Construímos a nossa segurança sobre a ilusão do controle. Mas então a vida pesa, o cansaço cobra a conta, e somos forçados a encarar uma verdade amarga: por nós mesmos, não conseguimos sustentar a arquitetura da nossa própria existência. É exatamente nesse ponto de exaustão, quando as nossas certezas ruem, que o conselho do Salmo 37:5 nos confronta: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle, e Ele tudo fará.” Entregar o caminho não…
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Senhor de si
A que ponto chega a crueldade humana? Pergunto se o progresso e o avanço tecnológico fizeram de nós homens de primeiro mundo. E pergunto o que significa primeiro mundo. Um país desenvolvido economicamente? Tecnologicamente? Ou um lugar onde as pessoas aprenderam a dominar o próprio lado instintivo? Fico com a terceira definição, e é justamente ela que não se sustenta. O domínio dos instintos também serve ao mal. O hipócrita domina os seus, e domina para o mal. O calculista domina os seus e espera. O psicopata é, entre todos, o mais senhor de si. O autodomínio mede quanto alguém consegue segurar. Não diz nada sobre para onde vai o…
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Sisudo em palavras
Davi era o caçula, o último a ser lembrado entre os filhos de Jessé. Talento, biblicamente falando, não é uma habilidade. É um valor, uma unidade de peso, uma moeda. O sentido que damos hoje à palavra vem de uma parábola em que talentos são dinheiro entregue a servos para ser movimentado. Quem tem talento, nesse sentido antigo, tem algo que só vale quando circula. Davi era músico, e sua música trabalhava: restaurava a alma aflita de Saul, trazendo paz onde havia aflição. Quando o descrevem a Saul, dizem que ele sabe tocar, é valente, é homem de guerra e é sisudo em palavras. A expressão vem da tradução de…
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Água viva
O Salmo 104 descreve a criação com profundidade poética e nos lembra que somos pequenos diante da majestade divina. Deus faz rebentar nascentes; as águas correm entre os montes e dão de beber a todos os animais do campo. Assim como Tales de Mileto observou a água como o elemento fundamental da vida, reconhecemos que sem água não há existência. Sem o Espírito de Deus, não há vida espiritual. Na Festa de Sucot, os sacerdotes retiravam a água do tanque de Siloé. Foi nesse contexto que Jesus falou da água viva que satisfaz a sede eterna. Ele não propôs um símbolo novo: ocupou um que já estava em uso, no…
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Lá fora, primavera
Quando o sol entra pela janela do meu quarto, um novo dia floresce em seus raios dourados, e sinto o coração despertar em sintonia com a vida que renasce. A alegria, leve e fresca, é como uma festa que dança no ar e enche meu jardim de promessas. Lá fora, é primavera; dentro de mim, um verão vibrante. Estou aquecido pelo amor, pleno de felicidade. Tudo resplandece em uma beleza intensa, como se visse o mundo pela primeira vez. A primavera vem, e com ela vejo apenas flores, apenas rosas em meu caminho. Sou amado, e essa certeza é o solo fértil da minha existência.
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O café das 17h30
Quando coloco um par de óculos escuros, vejo o mundo sob uma tonalidade mais escura. Minha visão não alcança diretamente o que está diante de mim, passa por uma lente que modifica o que vejo. Na empresa onde trabalho, costumo tomar um café às 17h30. Ao chegar à cozinha, encontro, na maioria das vezes, uma garrafa praticamente vazia. Diante disso posso dizer “só deixaram o resto para mim” ou “que bom, ainda restou um pouco”. Observar é uma escolha de perspectiva. Ao olhar para algo, podemos enxergar de diferentes ângulos, e a escolha do ângulo define nossa percepção. Muitas vezes escolhemos o ponto de vista inconscientemente, deixando que o piloto…
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Sem forma e vazia
Meu mundo é o caos, uma vastidão de desordem onde tudo se perde e se dissolve. Não consigo distinguir objetos, não há linhas ou horizonte, apenas um vazio nebuloso onde o sentido se esvai. A cada olhar, vejo apenas a desordem, e me torno estrangeiro em mim mesmo. O caos é, em sua essência, a ausência de sentido. Nele deixo de imaginar, e sem imaginação perco minha arte. Esse vazio incita uma busca por algo que o preencha. Mas como preencher o que já não reconhece forma? Como saciar um espaço onde tudo é sem contorno, sem delimitação? Ao tentar entender a natureza do vazio, sinto que perco a própria…
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O que estamos dispostos a ver
Os dias, em sua passagem implacável, vão consumindo nossas forças, e o esforço de abrir caminhos nos enfraquece. A vontade de alcançar a chegada é tamanha que a ansiedade toma conta do coração, enchendo-o de pressa. Com os olhos fixos na meta, esquecemos de quem está ao nosso lado. Deixamos de ver aqueles que caminham conosco, como se fossem apenas sombras no caminho. Esquecer por ausência pode ser compreensível. Esquecer porque escolhemos não ver o outro é imperdoável. A cada dia que passa, me convenço mais de que enxergamos apenas aquilo que estamos dispostos a ver.
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Cercar-se de palhaços
Fábio, um sábio homem do interior, Deus o tenha, sempre foi um grande amante do circo. Lembro-me bem de quando ele, com seus dedos amarelados pelo cigarro, me levou a um espetáculo quando eu ainda era garoto. Apontou para o palhaço que me arrancava gargalhadas e disse algo que só agora entendo por completo: “Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.” Ele mesmo parecia ser uma dessas figuras que carregam alegria consigo. Como o palhaço daquele circo distante, tinha uma habilidade incomum de arrancar um riso genuíno até dos momentos mais sombrios. O sorriso é uma atitude perante a vida, uma virtude que revela…



























