• Filosofia & Teologia

    O meio-fio

    Era o aniversário da igreja Assembleia de Deus no bairro São João Batista, em Vila Velha, provavelmente no ano de 2007. Meu amigo Douglas Pinheiro pastoreava aquela pequena congregação, auxiliado pelo então presbítero e hoje pastor Joabe. Recebi o convite para pregar por dois dias: na noite de sábado e na manhã de domingo. Naquela noite de sábado, a igreja estava cheia. Enquanto ministrava a palavra, um senhor entrou. Seus passos vacilantes e a maneira como se dirigiu ao último banco denunciavam o estado em que estava. Sentou-se perto da porta de saída e começou a proferir palavras aleatórias, frases soltas que logo se tornaram um foco de distração. Percebi…

  • Artes & Narrativas

    Descobri os blogs

    A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…

  • Artes & Narrativas

    Parecia Luma

    Olhos fechados, mergulho na sombra do sonho. Uma névoa branca envolve o verde de um jardim escondido. Ela surge, descalça, num vestido branco. Cabelos longos e encaracolados caem sobre os ombros. Ela dança. Seus pés tocam a grama, desenhando formas invisíveis. Parecia Luma. No solo da Áustria, envolta pela neblina e pela paisagem dos Alpes.

  • Filosofia & Teologia

    Por fora e por dentro

    O que é, afinal, um bom relacionamento? Talvez seja algo simples e profundo ao mesmo tempo: a consistência da minha felicidade entrelaçada à busca da felicidade do outro, um laço sustentado na verdade e no amor. A busca frenética por uma rede de contatos, por “amigos” adquiridos através da técnica e de interesses mascarados, forma estruturas frágeis, construídas sobre a areia do fingimento. Amizades superficiais corroem a humanidade, formando pessoas insatisfeitas e solitárias, que enxergam no outro um objeto de manipulação, uma peça a ser ajustada para atender interesses. Nossos julgamentos e opiniões nascem de um ponto inicial em nós, uma série de pressupostos que trazemos na nossa bagagem interna.…

  • Filosofia & Teologia

    Alguns passos para trás

    Em toda a história do povo hebreu, a presença de Deus se manifesta em Sua misericórdia, como uma longa e paciente espera pelo retorno de Seus filhos. Ele oferece oportunidades de arrependimento antes de qualquer correção, uma mão estendida que nunca se cansa de apontar o caminho de volta. Quando transgredimos a lei, Deus nos dá, uma vez mais, a chance de reconhecer nossas falhas. A vida cristã é um contínuo chamado ao arrependimento, uma sucessão de chances que renovam a alma. Mas esse caminho exige, muitas vezes, a humildade de dar alguns passos para trás, de enfrentar o que ficou incompleto, de reparar o que ainda nos pesa, antes…

  • Filosofia & Teologia

    O próprio reflexo

    O pecado atravessa o tempo e o espaço, alcançando a todos, sem distinção de classe, lugar ou circunstância. Ele surge de inúmeras formas, adaptando-se ao coração humano, moldando-se aos desejos e fraquezas de cada época. Nos dias de Isaías, o pecado era como uma sombra que pairava sobre Judá, envolvendo desde os líderes até os cidadãos comuns. A corrupção se infiltrava na política, nas relações sociais, e até nos rituais religiosos. Isaías enfrentava o desprezo e a incompreensão ao denunciar o que estava fora do lugar, ao expor as rachaduras da sociedade. Mesmo sem sucesso aos olhos do mundo, permanecia fiel, pois entendia que sua missão era fazer com que…

  • Filosofia & Teologia

    O presente e quem presenteia

    A imagem de algo grandioso sempre desperta em nós um misto de assombro e reverência. Quando Deus nos chama para realizar uma grande obra, nossa imaginação tenta construir uma visão imensa, algo que transcenda nossos próprios limites. E, no entanto, ao tentar vislumbrar o que é infinito, permanecemos confinados nos contornos de nosso próprio imaginário. Isaías, em seu tempo, foi convocado a cumprir uma obra monumental. Sua missão era despertar Judá, arrancá-la da complacência e trazer uma mensagem de advertência que a impelisse ao arrependimento. Em meio a uma nação voltada aos próprios desejos, seria mais fácil proferir palavras que confirmassem suas escolhas, que alimentassem sua marcha já em curso.…

  • Filosofia & Teologia

    Escrita sem borracha

    “Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é desconhecido. Estou entre o “ir” e o “chegar”, preso a essa linha tênue onde tudo parece avançar e ao mesmo tempo…

  • Filosofia & Teologia

    O que não exige raízes

    A vida, em sua essência, é um chamado à frutificação. Quando cuidamos dela com zelo, os frutos que colhemos carregam significado. Cada ato de cuidado se transforma em um gesto de criação, como quem desenha no tempo uma obra. Nos dias de hoje, a experiência de vida é confundida com experiências que apenas desgastam. Caminhos que prometem intensidade e atraem com promessas de liberdade acabam por ser laços que nos prendem à superficialidade. O que nos atrai para esse vazio? Talvez uma força que nos prende ao visível, como se o imediato fosse o limite da existência. A frutificação da vida exige um cuidado atencioso, uma disposição interior para o…

  • Filosofia & Teologia

    A prisão que você aceitou

      As estações mudam, e com elas nossos olhos podem aprender a ver o mundo de novas maneiras. A cada estação, renascemos. E queria que você soubesse que também desejo isso para você: a transformação. Queria que, a cada dia, você se descobrisse novo, que abraçasse a impermanência como quem desvela o mistério de existir. Mas você se torna pedra, imóvel e resistente, celebra a inércia como se ela fosse virtude, sem perceber o quanto ela o afasta da vida. Eu queria ver em seu olhar o brilho do inesperado, a coragem de se surpreender consigo mesmo. Mas você não se permite esse jogo, não conhece a arte da surpresa.…