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Não desistas de mim
Ó Senhor, eis-me aqui: despojado de orgulho, com as ilusões rasgadas, em absoluta confissão. Os meus pecados são densos e incansáveis como as ondas que se chocam contra o abismo do mar. Sou, na minha essência, um pecador, e diante da Tua santidade reconheço a minha falência e a urgência desesperada por renovação. Na aurora da vida, o meu coração nutria o desejo puro de Te agradar. Carregava a certeza ingênua de que atravessaria os dias de forma irrepreensível, confiando que a minha própria força moral bastaria para sustentar o sagrado. O tempo, contudo, foi o mestre implacável que me revelou a fratura exposta da minha natureza. À semelhança de…
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Pedágio moral
O perdão, na narrativa bíblica, jamais se resumiu a uma absolvição jurídica, uma sentença fria que declara inocente quem falhou. O profeta Isaías apresenta um Deus que convoca o réu para um encontro de redenção: “Ainda que os vossos pecados sejam como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve” (Isaías 1:18). Esse perdão não é uma borracha que apaga o passado: é a reinvenção do coração. Quando observamos a anatomia do arrependimento de Davi no Salmo 51, deparamo-nos com um rei que aceitou despir-se da própria majestade para prostrar-se no pó. Davi não suplica apenas por alívio da culpa; clama por uma cirurgia na alma. É o grito de…
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Eu Sou
As sete declarações de Cristo no Evangelho de João são mais do que metáforas poéticas: são convites para o encontro. Elas revelam um Deus que se recusa a ser confinado em conceitos e se faz presença viva. Eu sou o pão da vida. O pão é a matéria que sustenta, sacia e nutre. Em um mundo esgotado por vazios e insatisfações crônicas, Ele se apresenta como o sustento que transcende a biologia e toca a fome da alma. É o alimento que, ao ser partilhado, multiplica-se. Eu sou a luz do mundo. Nas trevas da incerteza e da confusão moral, Ele é a claridade que devolve os contornos exatos à…
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Um pavio no fim do azeite
No Apocalipse, os sete castiçais de ouro não são figura poética: o próprio texto os identifica como as igrejas. Cada castiçal representa uma comunidade local, com as suas virtudes e as suas falhas, e cada um é fragmento da mesma Luz. É um convite a compreender a Igreja como organismo interligado, e não como aglomerado de instituições isoladas, dependente do Cordeiro que caminha entre as hastes. A metáfora do ouro e do fogo exige uma radiografia da nossa própria condição. Filadélfia e Esmirna erguem-se como faróis de perseverança, provando que a fidelidade é possível sob pressão. O brilho de Éfeso enfraqueceu, denunciando o abandono do primeiro amor. Sardes agoniza como…
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Um CEP privilegiado
O mandamento de ir por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura jamais foi proferido como sugestão de rota ou conselho pastoral. É um imperativo, uma convocação à missão de espalhar a mensagem do Cristo por todas as frestas da terra. O evangelho repudia o confinamento. Ele não pertence a um CEP privilegiado, nem é propriedade de um grupo seleto: a sua natureza exige ser vivido e partilhado sem o filtro das restrições humanas. A eternidade não nos permite o luxo letárgico de aguardar pelo cenário perfeito ou pela conveniência dos calendários. A colheita já pesa madura nos campos, como diz o evangelho de João, e cada…
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Aquilo que nos possui
A pobreza estende-se muito além da ausência de bens materiais. Ela é a ausência de plenitude, uma lacuna que ecoa nas camadas mais íntimas do ser. Todos nós somos, em alguma medida, pobres quando nos tornamos reféns da falta, seja ela pautada em necessidades reais ou em desejos fabricados. A pobreza revela-se, então, como um estado de vazio, uma inquietude crônica que, insuflada de fora, converte-se em fera insaciável. Para compreender essa dinâmica é vital traçar a fronteira entre a necessidade e o delírio. A necessidade é o que nos é inegociável para existir e viver com dignidade: comer, ter onde morar, ser cuidado na doença, estar seguro. O desejo,…
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Hábitos involuntários da Graça
Assim como as leis que regem o universo físico, o sobrenatural também obedece a princípios. Os milagres não expressam a dificuldade ou a grandiosidade que a mente humana tenta lhes atribuir: são o fluxo do amor divino. Não existe ordem de complexidade para um milagre. A crença de que curar uma enfermidade é mais difícil do que resolver um dilema cotidiano é uma barreira puramente humana. Para a Fonte, não há feito maior ou menor. O erro mais frequente do homem é idolatrar o fenômeno e negligenciar a Fonte. A experiência do milagre é o desfecho visível de uma conexão invisível, e mais vital do que o alívio imediato é…
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Medir o oceano com uma régua escolar
Em meio ao ceticismo contemporâneo, onde o afã materialista tenta confinar o real às fronteiras do tangível, ergue-se uma inquietação: seria possível, por vias puramente físicas, abarcar aquilo que é, por natureza, eterno? A ciência moderna, com toda a sua grandeza e utilidade inegáveis para examinar as engrenagens do mundo físico, exclui o sagrado porque o divino escapa aos recortes das suas observações. Isso não é falha do método: é o próprio método. Deus não é um objeto para ser dissecado em uma bancada de laboratório. Ele é a Fonte que sustenta o sujeito que O observa. Qual é o sentido de demandar prova material de uma Presença que atua…
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No chão comum
Aconteceu no limiar entre 2008 e 2009, na Assembleia de Deus em Padre Gabriel, congregação do Ministério Vale Esperança. O culto já havia se encerrado, talvez fosse o fim de uma festividade, e o que cravou na memória foi o instante em que um homem, cujo rosto eu nunca havia cruzado e jamais voltaria a ver, caminhou na minha direção. Era um sujeito de pele escura e estatura mediana, vestido com uma camisa social preta. Não sei o seu nome, a sua origem ou o seu destino. O encontro não se deu sob o calor dos louvores nem durante o sermão. Aconteceu no rescaldo, quando o barulho começava a se…
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Desviar-se do alvo
Uma vida espiritual robusta revela-se não na biologia do sobreviver, mas na profundidade do sentir. Assim como a carne exige o pão cotidiano para não definhar, a alma agoniza por um sustento que transcende a matéria. A advertência de que nem só de pão viverá o homem, em Deuteronômio 8 e retomada por Cristo, não é metáfora poética: é diagnóstico. A Palavra não atua como adorno, e sim como o oxigênio do ser interior. Existe uma alquimia silenciosa entre aquilo que absorvemos e o que passamos a abrigar. Se os olhos são as clássicas janelas da alma, os ouvidos funcionam como os portões do espírito. É por essas frestas que…




























