Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

  • Filosofia & Teologia

    Onde as palavras foram gastas

    Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses. A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele. A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime. Continuo achando que as duas estão certas. Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça. Nada disso…

  • Educação & Cuidado

    O nome do goleiro

    Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol. Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição. Reli o trabalho agora. O nome do goleiro não aparece uma única vez. Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”. O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha. Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o…

  • Artes & Narrativas

    Mestre de caminhos

    Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…

  • Filosofia & Teologia

    A renúncia invisível

    A jornada da fé nem sempre é suave. Às vezes as lutas são tão reais quanto uma enxaqueca que beira a náusea, fruto, confesso, de um vício assumido em café e das demandas burocráticas que nos cercam. E, entre uma dor de cabeça e uma ligação administrativa, permanece a convocação: não abandonar a Palavra. Para muitos, o jejum é o sacrifício visível. O estudo teológico é a renúncia invisível. Aprofundar-se nas Escrituras exige o abandono do comodismo e da preguiça intelectual, e há um preço em tempo e foco para quem deseja crescer em Cristo. O ponto de partida está numa distinção: a Trindade imanente e a Trindade econômica. A…

  • Filosofia & Teologia

    Talismãs

    Houve um tempo em que a esperança parecia caber em uma trama de algodão egípcio. Olhar para aquela camisa branca pendurada era, para mim, como contemplar um estandarte de guerra, uma armadura tecida com a promessa de que eu, finalmente, seria alguém digno de ser amado. É ela, pensei, é ela que me fará conquistá-la. Naquela época, eu não comprava roupas. Eu comprava talismãs para esconder a minha própria nudez existencial. O preço daquela ilusão foi obsceno. Uma transação que ignorava a lógica e o salário, alimentando-se apenas da minha urgência em pertencer. O relógio suíço, que cruzou o oceano como se trouxesse consigo uma nova era, ficou retido na…

  • Artes & Narrativas

    Fome de ser

    Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência. Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em…

  • Filosofia & Teologia

    Um tratado de paz

    O ser humano abriga um núcleo profundo que transcende as fronteiras do consciente e do inconsciente, uma essência que opera simultaneamente como mistério e bússola. Esse núcleo é a nascente da nossa autenticidade. Contudo, para a imensa maioria, é o ego, com a sua necessidade crônica de controle, que assume o volante na relação com o mundo. O ego não apaziguado deseja impor-se a qualquer custo: mendiga reconhecimento, aprovação e poder, e perde-se na tentativa desesperada de provar a própria relevância. Amadurecer exige, de fato, a construção de um ego forte. A diferença é que esse ego deve operar como sentinela aliado da essência, e não como o seu ditador.…

  • Filosofia & Teologia

    Mapear a criatura

    Crer não carrega nenhum traço de infantilidade. Pelo contrário, a fé é um exercício de profundidade, uma aposta naquilo que não se vê, mas que se intui com a força de uma verdade transcendental. Esse movimento interno não se sustenta na ingenuidade, e sim na audácia de dar um salto no escuro, abraçando o que escapa à métrica racional. Crer exige o abandono do porto seguro das certezas para navegar na vastidão do mistério. Não é refúgio para os fracos de espírito, mas a arena daqueles que aceitam a vida por inteiro, caçando um sentido que sobreviva à corrosão do tempo. Contudo, para conhecer o Criador, é imperativo primeiro mapearmos…

  • Filosofia & Teologia

    Apodrecer no galho

    De onde deriva o amadurecer? A pergunta obriga a investigar as raízes invisíveis que sustentam o crescimento. A regra é implacável: só amadurece quem, de fato, cresce. E crescer transcende o acúmulo de aniversários ou de cicatrizes. É uma metamorfose interna que alinha o que somos hoje àquilo que nascemos para ser. A semelhança com a natureza é exata. Assim como um fruto atinge a plenitude ao absorver o calor do sol e a nutrição da terra, nós amadurecemos ao processar a essência da vida. Contudo, há uma linha tênue nesse processo: o limite exato entre a maturidade e a putrefação. Se o fruto não for colhido no tempo certo,…

  • Filosofia & Teologia

    Não peça desconto na vida

    Há uma máxima implacável: não peça desconto na vida. Pague o preço integral de cada sonho, de cada lágrima e de cada conquista. Quando construímos o nosso caminho à custa de suor e propósito, descobrimos que a verdadeira soberania nasce do compromisso com a própria história. Não aceite lutar por migalhas, nem se permita virar refém de esmolas emocionais ou materiais. A luta diária é para forjar uma realidade onde tudo o que possuímos seja fruto legítimo da nossa coragem, e não do acaso. Não se perca no tribunal dos julgamentos alheios. Julgar o outro é desviar os olhos da própria estrada, uma distração que consome energia e turva a…