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Por terceiros
Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa: Daniel, Ana Paula, Aline e Keila. Keila era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial. Aline seguiu outro rumo, tornou-se empresária no ramo de supermercados e material de construção. A vida a levou a construir estruturas, enquanto a Keila passou a proteger as mesmas ruas onde um dia brincamos. Ana Paula se tornou médica. E Daniel, cujo caminho exato me escapa, foi o amigo que mais me acompanhou nas aventuras do cotidiano. Depois da infância, nossos laços se afrouxaram, as visitas cessaram, e cada um tomou seu rumo. Nunca mais tive contato direto,…
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Jonas, outra vez
Tenho a lembrança viva de quando, com apenas 10 anos, subi ao púlpito pela primeira vez para levar a mensagem principal. Foi no Morro dos Alagoanos, em um templo simples, ainda na parte de baixo da sede própria da igreja. Era 1995 ou 1996, e eu, tão jovem, sentia o peso da responsabilidade. Preguei sobre Jonas. A história daquele homem que tentou fugir de Deus. Eu não queria fugir, mas tremia diante do que aquele momento representava. A pequena congregação estava ali, atenta, com olhos que me observavam e ouvidos que aguardavam o que eu tinha para dizer. Minha segunda pregação foi na Assembleia de Deus em Gurigica, uma congregação…
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Ele cumpriu a promessa
As tardes na rua eram repletas de risadas, correria e improvisos. Em frente à nossa casa, um espaço entre a minha e a dos meus tios Zeco e Maria, montávamos nossa “arena”. Ali, travinhas improvisadas e uma turma que hoje em dia ficou guardada mais na memória afetiva do que nos nomes. Mas alguns não se apagam: Rafael, meu primo; Josué; Gessé; Whashiton; e Lila. Lila era um garoto branco, magro, que frequentemente jogava sem camisa. Era habilidoso, mas, por vezes, passava dos limites. Lila deu uma entrada dura no Rafael e começou a zombar dele. Rafael, retraído, parecia intimidado. Não suportei a visão do meu primo sendo alvo de…
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A Espada
Nos fundos do quintal do meu tio Zeco, próximo ao muro baixo que dividia nossa casa da casa da dona Marta, havia uma área de serviço, um espaço que se tornava palco de nossas brincadeiras. Naquele dia, uma fogueira dominava o cenário. Não me lembro ao certo o porquê de a fogueira estar lá, mas sua presença logo se integrou às minhas brincadeiras com meu primo Rafael. Brincávamos de espadas. Minha espada era uma barra de ferro arredondada, brilhante, que eu imaginava ser tão poderosa quanto as das histórias que povoavam minha mente. Movido por um desejo de torná-la ainda mais imponente, decidi introduzi-la no fogo da fogueira. A barra…
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Dois palitos em cruz
No quintal de casa, no bairro Grande Vitória, o palco era simples. Bastava uma formiga morta e uma caixa de fósforo vazia. A formiga, encontrada já sem vida, tornou-se o centro de um ritual. Peguei a caixa de fósforo e a transformei em um pequeno caixão. Cuidadosamente, coloquei a formiga dentro, fechando a tampa com um senso inesperado de reverência. Em seguida, comecei a escavar a areia do quintal, criando um buraco que serviria de sepultura. Era pequeno, proporcional ao tamanho do ser que ali seria depositado. Com a caixa depositada no buraco, preenchi-o novamente com areia, formando um pequeno montículo. Para finalizar, peguei dois palitos de fósforo, que se…
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O anel de plástico
As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus pais, mas suas histórias e seu jeito nos levavam a imaginar que ela era rica. Hoje, sei que isso era apenas fruto de…
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Dobrei os joelhos
Aquela energia brota do coração e percorre cada célula do corpo, da cabeça até a ponta dos pés. É um poder que nasce da rendição absoluta ao Criador. Esse poder se manifesta com intensidade quando, com a boca e a alma em uníssono, proclamamos: Glória, Glória, Glória a Deus! Foi assim que o senti, em 2002, na Assembleia de Deus no bairro Primeiro de Maio. O culto estava cheio, mas, ao mesmo tempo, parecia que eu estava sozinho na presença do Senhor. Diante do altar, dobrei os joelhos. Fechei os olhos, abri a boca e deixei a alma falar, sem me preocupar com quem estava ao lado. Não havia mais…
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A igreja viu
Eram dias de festa na Assembleia de Deus no Bairro Grande Vitória, Congregação do Ministério da Volta do Rabaioli. A igreja estava cheia, as pessoas transbordavam alegria, e os bancos estavam repletos de fiéis prontos para celebrar. Meus pais, como sempre, estavam presentes. Papai, discreto, escolhia um lugar próximo à porta. Eu, doente e impossibilitado de andar, estava no colo de minha mãe. Naquele tempo, minha realidade era marcada por limitações físicas causadas por uma meningite que tinha me atingido severamente. Minhas pernas não firmavam, e a dor na coluna era constante. A cabeça de criança não compreendia a gravidade da situação. Para mim, a vida de internações, hospitais e…
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O Castelo
Um castelo que se constrói dentro de si mesmo. Suas bases mergulham profundamente no mistério do espírito, cravadas em uma rocha que transcende o mundo. Essa rocha é viva, pulsante, e seu nome é Vida. Colunas de força invisível conectam a rocha aos recantos mais profundos da alma, onde habitam os depósitos mais preciosos e, paradoxalmente, mais ocultos. As colunas não são vistas, mas nelas reside a sustentação de toda a fortaleza interior. Paredes simbólicas erguem-se entre o interior e o exterior. Elas moldam um espaço onde a alma pode repousar. Dentro dessa fortaleza há um núcleo, onde as paredes se tornam cada vez mais estreitas, conduzindo ao lugar onde…
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A sombra que caminha à esquerda
A projeção, essa artimanha da mente, constrói ilusões que se estendem como sombras do presente, tentando alcançar um futuro que ainda não existe. É como trazer o “lá” para o “aqui”, antes mesmo de ele ter forma. Mas quando o “lá” se torna real e habitamos o espaço do que projetamos, a decepção surge. Quantas ilusões plantamos ao pensar que podemos ser especiais para alguém, ocupando um trono que só existe enquanto dura o delírio de uma autoestima desenfreada. Acreditamos que o “especial” será eterno, mas ele é frágil, condicionado à duração do encantamento. A ilusão maior está na tentativa de decifrar o outro como se fosse uma equação. Às…


























