• Pólis & Gestão

    A lista

    O que Humphreys produziu, no fim das contas, foi uma lista. Nomes e endereços de homens cuja exposição destruiria a vida deles. Ele nunca a divulgou, e não há registro de que alguém tenha sido prejudicado. Mas a lista existiu, e existiu porque um pesquisador teve acesso a uma coisa que aquelas pessoas só faziam sob a condição de que ninguém soubesse quem eram. E é isso que faz aquele caso continuar servindo cinquenta anos depois, mesmo para quem nunca vai fazer sociologia da sexualidade. Ele descreve uma situação que é bem mais comum do que parece: a de alguém que, por causa da própria posição, vê o que as…

  • Pólis & Gestão

    As parteiras

    Na Viena da década de 1840, o hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. Guarde a segunda frase, porque ela costuma passar em branco quando a história é contada. O setor com menos formação, menos prestígio, menos salário e nenhum acesso à sala de autópsia tinha um quarto dos mortos do setor prestigiado. E aquilo durou anos sem que ninguém investigasse. Não é que os dados estivessem escondidos. Estavam no registro do hospital, e as próprias parturientes conheciam a…

  • Filosofia & Teologia

    Por que ninguém lavou as mãos

    Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese. Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar. Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira. Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor que tem consciência por mim

    Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos. Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo. O segundo exemplo é o meu ofício. Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que…

  • Pólis & Gestão

    Pesquisar onde se tem poder

    No projeto de doutorado que escrevi sobre ética e formação cidadã, defini o campo assim: estudos de caso nas turmas dos cursos técnicos integrados ao ensino médio do Instituto Federal do Espírito Santo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas com servidores e estudantes, e análise documental. É o lugar onde eu trabalho. E não trabalho lá de qualquer jeito. Coordeno a assistência estudantil do campus. É pelo meu setor que passam os auxílios, os encaminhamentos, os atendimentos e boa parte das decisões que afetam a permanência de um estudante na instituição. Escrevi que entrevistaria estudantes. Um estudante entrevistado por mim não está diante de um pesquisador. Está diante do coordenador do…

  • Pólis & Gestão

    Pontos fracos em seu percurso

    O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso. Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra. Eu respondi com uma lista de marcadores. O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar. Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o…

  • Pólis & Gestão

    O corredor

    Naquela escola, todos me trataram bem. O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas. Menos uma vez. Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área. Expliquei que…

  • Pólis & Gestão

    A assinatura

    Quando terminei o primeiro estágio, continuei frequentando as aulas do professor de Artes. Não era obrigado. Fiz de propósito, para não perder o contato, para que quando chegasse a hora do estágio dois eu já tivesse vínculo com a escola e não precisasse recomeçar as articulações do zero. Foi uma estratégia razoável, e ela não funcionou. A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro. Liguei várias vezes para a direção. Mandei mensagem pelo aplicativo. Não obtinha resposta. Quando obtinha, a resposta era que iriam assinar. E não assinavam. E aí veio o pior. O professor me pediu que eu não fosse mais às aulas, até que o…

  • Pólis & Gestão

    Quarenta e cinco horas

    A disciplina de Estágio Supervisionado 2 exigia quarenta e cinco horas de regência. O professor da escola me ofereceu duas aulas por turma. Eram seis turmas. Duas aulas de cinquenta minutos cada. Seiscentos minutos. Dez horas. Quarenta e cinco exigidas. Dez disponíveis. Anotei a diferença no relatório e escrevi, na frase seguinte, a única coisa que dava para escrever: considerando toda a dificuldade em se encontrar um estágio, aceitei a proposta. Aceitei porque a alternativa era não ter estágio nenhum. Eu havia procurado várias escolas antes. Várias me recusaram. Aquela foi a última que procurei e a única que me acolheu, e eu já tinha atravessado, no semestre anterior, um…

  • Pólis & Gestão

    O documento que ninguém escreveu

    Duas observações do meu relatório de estágio, feitas com quinze dias de diferença, dizem a mesma coisa. A primeira: o projeto de desenvolvimento institucional da escola é fechado e exclui os agentes da escola de participar diretamente da sua construção. A segunda: o professor não segue o projeto de desenvolvimento institucional, e defende autonomia para escolher os conteúdos que ministra. Ninguém precisa de mestrado em gestão pública para ligar as duas frases. Mas eu tenho um, e foi ele que me fez escrever as duas. Um documento de planejamento redigido sem as pessoas que vão executá-lo não é ignorado por rebeldia. É ignorado porque não foi feito para ser executado.…