Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

  • Filosofia & Teologia

    O cuidado em estado de alerta

    O medo é uma presença constante, mas não é o algoz. Ele é o avesso exato da coragem, um espelho implacável que reflete as nossas profundezas e afere a medida da nossa humanidade. Ensina a cautela, forja a humildade e nos impede de encarnarmos heróis incautos, isentos da jornada de incertezas que faz da vida uma coisa inacabada e, precisamente por isso, bela. O encanto da existência reside nesse estado contínuo de quase, no detalhe que ainda nos escapa. Há uma legião de medos, cada qual com seu disfarce: o pavor de não chegar, o terror de não amar, o receio de falhar diante de um grande sonho. À primeira…

  • Filosofia & Teologia

    O grito e a quietude

    Há, nas profundezas de cada um de nós, uma voz que sussurra e outra que grita. Uma força que nos empurra para a criação, para o encontro e para o amor, e outra que, silenciosa e implacável, nos atrai de volta para a quietude. A primeira é sede de expansão. Impulsiona a transcender o que somos, a tentar tatear o infinito por dentro do efêmero. É o desejo de crescer, de aprender, de arrancar a verdade escondida no âmago de todas as coisas. Revela-se na urgência da arte, no calor do encontro, na promessa do futuro. A segunda nos recorda a transitoriedade de tudo o que tocamos. Convida a encarar…

  • Filosofia & Teologia

    Teologia em chamas

    Estudar Teologia nem sempre implica conhecer a Deus. Falar sobre Ele não garante um encontro com Ele. São duas ordens distintas, e nenhuma substitui a outra. O rigor metodológico produz precisão, e não produz proximidade. E a proximidade, sozinha, não produz precisão: sem rigor, o coração aquecido diz qualquer coisa e chama de revelação. O problema aparece quando uma das duas se apresenta como suficiente. O mercado religioso produz profissionais dotados de vasto conteúdo teórico e carentes da prática que molda um conhecedor de Deus. Há, nesse mar de teorização, uma lacuna: o encontro. Conhecer a Cristo implica ir até Ele, falar com Ele, viver Nele. Requer amar e se…

  • Filosofia & Teologia

    Vocação e chamado

    Há uma fronteira tênue, porém intransponível, entre a vocação e o chamado. A vocação, em sua essência terrena, reflete uma inclinação intrínseca, uma habilidade inata para o domínio de determinada atividade ou para a mobilização de pessoas. Pode-se possuir uma vocação arrebatadora para a liderança sem que haja qualquer inclinação para o sagrado, e a história oferece exemplos sombrios de homens com enorme capacidade de arrastar multidões e nenhuma causa além dos abismos do próprio ego. A vocação firma-se na aptidão individual, e não necessariamente em um propósito divino. O chamado subverte e transcende a vocação. A soberania divina não se pauta por processos seletivos baseados em habilidades naturais: Deus…

  • Pólis & Gestão

    Cuidador de almas

    Há uma exigência inadiável para quem assume o peso da liderança cristã: a busca ininterrupta pelo aperfeiçoamento na interpretação da Palavra. O líder é convocado a ir muito além da administração institucional. Exige-se dele um mergulho no estudo das Escrituras e na prática rigorosa da hermenêutica, para guiar o rebanho não com achismos, mas com discernimento. Em um tempo de superficialidades, a clareza teológica é indispensável. Liderar, na perspectiva do Reino, afasta-se diametralmente da lógica corporativa de chefia. É um ato de orientar e servir com amor e responsabilidade, visando o amadurecimento espiritual de cada pessoa. Para sustentar essa vocação, o hábito da leitura e do estudo não é luxo…

  • Filosofia & Teologia

    A paz subversiva

    Seguir os ensinamentos de Cristo não é um passeio por um caminho de luz. É trilhar a via árdua da lucidez, onde o amor ao próximo se estabelece como o único fundamento possível para uma existência bem-aventurada. Quando passamos a enxergar cada ser não como instrumento para o nosso ego, mas como imagem e semelhança de Deus, a paz e a união deixam de ser apenas possíveis e passam a ser urgentes. É essa compreensão que nos devolve a capacidade de olhar para o outro, despojado de seus rótulos, e chamá-lo de irmão. A religião transcende a repetição mecânica de ritos e a frieza das doutrinas. Ela é a práxis…

  • Filosofia & Teologia

    Amar é libertar

    Não é o masculino que causa a dor, mas o ego que nele habita. Digo isso de dentro. Conheço esse ego e conheço a sua economia. Ele não ama: consome. Vê o outro não como um ser em plenitude, mas como um meio de preencher os próprios vazios. É atraído pelo que pode obter, e a sua afetuosidade é tão volátil quanto a sua necessidade de validação. Onde ele domina, o impulso é ganhar sem dar. Para reconhecer esse ego, é preciso a lucidez de observar ações, e não promessas. Quem ama valoriza a presença, a conexão, o respeito. Não faz da conquista um troféu, mas um compromisso de jornada.…

  • Educação & Cuidado

    Eu estou aqui

    Há uma verdade que reverbera silenciosamente pelas frestas do mundo contemporâneo: em meio à multidão ruidosa, aos olhares desviados e às pressas inexplicáveis, existem aqueles que simplesmente esperam. São pessoas que, na quietude de suas próprias fraturas, aguardam por um encontro que as devolva ao contorno da própria humanidade. Há almas exaustas que não anseiam por conselhos ou respostas prontas, mas pela dignidade de um ouvinte atento. Há rostos marcados pela tristeza que não buscam explicações lógicas para a dor, mas um espaço seguro onde o silêncio seja permitido e o abraço sirva de abrigo. Ser o porto de quem se sente à deriva é oferecer o conforto de uma…

  • Filosofia & Teologia

    O ego que nele habita

    Não é o masculino que causa a dor, mas o ego que nele habita. Digo isso de dentro. Conheço esse ego e conheço a sua economia. Ele não ama: consome. Vê o outro não como um ser em plenitude, mas como um meio de preencher os próprios vazios. É atraído pelo que pode obter, e a sua afetuosidade é tão volátil quanto a sua necessidade de validação. Amar de verdade requer habitar um lugar onde o eu se torna secundário ao nós. Exige a vontade de ver e acolher o outro por completo, respeitando a integridade da sua essência. O ego egocêntrico vê o outro como mercadoria emocional, e a…

  • Filosofia & Teologia

    Gigantes técnicos

    Na sociedade do espetáculo, como Guy Debord a nomeou, é perigosamente fácil confundir aclamação com evolução. Em nossa busca incessante por reconhecimento, aprisionamo-nos na superfície, contentando-nos com o brilho passageiro dos aplausos, sem jamais explorar a topografia profunda do ser. O sucesso raramente é sinônimo de transformação autêntica: é um jogo de espelhos, mantido pela validação externa e desprovido de substância interna. O que vemos ao nosso redor é a ascensão de gigantes técnicos que permanecem anões espirituais. Pessoas que conquistaram fama, riqueza e influência, mas que operam no mesmo nível de consciência de sempre. Suas habilidades foram lapidadas, suas técnicas aprofundadas, e suas almas continuam reféns dos antigos desejos…