Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

  • Pólis & Gestão

    Uma escolha de afinidade

    O mundo gira, mas o Sol permanece. Em meio às reviravoltas da vida, enquanto a essência divina permanece incorruptível, o homem cede à falsidade e torna-se o algoz da própria luz que deveria iluminar a sua existência. A traição é a mais refinada das feridas, pois nunca vem de um inimigo declarado. Ela nasce no meio dos que chamamos de irmãos. É uma rede de mentiras entrelaçadas por hipócritas que se camuflam na bondade superficial. Em estruturas corrompidas, a mentira deixa de ser apenas um desvio moral e se torna um sistema de poder. É por isso que a retidão é frequentemente punida. O homem justo é tratado como uma…

  • Filosofia & Teologia

    Deus não concorre com a nossa agenda

    O conforto não produz descrença. Há crentes com a vida inteira resolvida e há quem não tenha nada e não creia em coisa alguma. O que o conforto produz é a desnecessidade. Quando o cenário ao redor é confortável, quando a conta bancária traz segurança e o amanhã parece apenas uma repetição lógica do hoje, o milagre não chega a ser refutado. Ele deixa de ser requerido. A realidade está domada, ao alcance das mãos, e ninguém pede socorro de dentro de casa. Mas o que acontece quando a vida, em suas reviravoltas implacáveis, nos empurra para fora do nosso domínio? É no exato milissegundo em que o chão cede…

  • Filosofia & Teologia

    O peso de uma embaixada

    Se soubéssemos que as palavras que estamos prestes a proferir seriam as últimas, o que diríamos? A resposta a essa pergunta é a medida da nossa reverência diante do sagrado. Cada palavra proferida por um servo de Deus deveria ser como uma centelha que atravessa o tempo, um fôlego capaz de rasgar o véu do cotidiano e transportar quem ouve para aquele espaço estreito onde o Eterno se encontra com o mortal. Um sermão nunca é apenas um discurso. É o peso de uma embaixada. Como um mensageiro que representa o seu Rei, quem sobe a um altar deveria falar com a sobriedade de quem sabe que aquela pode ser…

  • Filosofia & Teologia

    O link quebrado

    Há poucos dias, vasculhando os arquivos mais antigos deste site, tropecei em um túmulo digital. Era uma postagem minha, feita há muitos anos, composta apenas por uma breve frase e um link de vídeo. A legenda, escrita com o ardor típico de quem acaba de descobrir algo revolucionário, trazia um ultimato: “Ouça essa pregadora, uma mensagem que todos precisam ouvir”. O vídeo não existe mais. A tela exibe apenas o cinza opaco do erro de reprodução. Não me lembro do rosto da pregadora. Não me lembro da sua voz, nem do texto bíblico que ela usou, muito menos do motivo pelo qual eu acreditei, com tanta veemência, que a humanidade…

  • Filosofia & Teologia

    Um ato de amputação

    Existe uma ingenuidade perigosa na forma como lidamos com a passagem do tempo: acreditamos que o simples virar da página no calendário é suficiente para nos libertar de quem fomos ontem. Mas o passado possui uma força gravitacional esmagadora. Se não fizermos um esforço consciente para romper com ele, seremos eternamente reféns das nossas memórias, falhas e frustrações. É contra essa inércia que o apóstolo Paulo adverte em Filipenses 3. Quando ele diz que faz apenas uma coisa, esquecer o que fica para trás, não está propondo um exercício de amnésia tola. Está revelando uma estratégia de sobrevivência. Esquecer, no sentido bíblico, é um ato de amputação. É desvincular a…

  • Pólis & Gestão

    A igreja entre as palmeiras

    Quando morávamos em Pedra dos Búzios, meu pai teve um sonho que lhe roubou o sossego. Ele caminhava por uma estrada ladeada por palmeiras imponentes. A imagem era nítida, o significado mudo. Guardou o mistério no peito. A tradução veio meses depois, a caminho de um sítio para buscar mangas com um colega. Ao dobrar uma curva na estrada, o cenário do sonho saltou para a realidade: as palmeiras estavam lá, enfileiradas. Ele entendeu que estava pisando em solo sagrado. Ao chegar ao sítio, a carência espiritual do lugar era palpável. Longe de tudo, os moradores não tinham onde congregar. O dono da terra, percebendo a sensibilidade do meu pai,…

  • Pólis & Gestão

    Com as próprias mãos

    Foram três noites, 18, 19 e 20 de dezembro, no templo da Assembleia de Deus em Padre Gabriel Meire. O Círculo de Oração Rosa de Saron completava dezoito anos. Meu pai era o pastor daquela igreja. Reformou o templo inteiro com as próprias mãos. Ficou bonito e organizado. Minha mãe era a dirigente do Círculo de Oração local. Eu estava lá, ajudando. Nas três noites houve testemunhos, houve louvores, houve orações que encheram o templo. Corações cansados voltaram a esperar. A festa ficou muito bonita.

  • Artes & Narrativas

    Eu sou o que não disse

    Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta. Sou a presença oculta no peito, o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento. Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda…

  • Filosofia & Teologia

    Saber vazio

    Há uma inquietação que me acompanha há tempos, uma pergunta que, por teimosia ou necessidade, recuso-me a silenciar. Fomos ensinados que ter dúvidas é um sintoma de fraqueza espiritual. Mas hoje percebo que expor a nossa incerteza é a única porta de entrada para a luz. Muitos vivem aprisionados em meias-verdades e fés superficiais simplesmente porque nunca tiveram a coragem de confessar a própria ignorância. Para sermos preenchidos, precisamos primeiro ter a coragem de nos esvaziar. O ato de entregar a nossa dúvida a Deus, reconhecendo que o nosso conhecimento é incompleto, trêmulo, mas sincero, é o que chamo de “saber vazio”. O saber vazio não é a ausência de…

  • Pólis & Gestão

    Funcionários do sagrado

    Assumir a responsabilidade de guiar outras pessoas na fé exige um nível de clareza que não nasce do nosso próprio intelecto. Sem uma luz que venha de fora para iluminar a nossa pequenez, ficamos cegos diante do peso da vocação. E a consequência dessa cegueira é fatal: tornamo-nos meros funcionários do sagrado. O espírito esfria, a gratidão desaparece e o amor transforma-se em discurso vazio. Quem perde a capacidade de agradecer já esqueceu o que significa amar. O maior inimigo dessa clareza não é a falta de conhecimento teológico, mas o egoísmo. Ele cresce de forma silenciosa, alimentado pela vaidade e por uma perigosa ilusão de autossuficiência. O líder que…