• Artes & Narrativas

    Velocidades diferentes

    Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário. E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro. Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação. E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é. Escrevi isso como observação técnica sobre construção…

  • Educação & Cuidado

    Aproximação e afastamento

    Enquanto eu observava aquela escola, a disciplina me pedia que eu estudasse como se observa uma escola. Havia um questionário. Uma das perguntas queria que eu listasse as marcas da pesquisa do tipo etnográfico, a partir de Marli André. Respondi com sete itens, copiando fielmente o que o texto dizia. Reli aqueles sete itens quatro anos depois e levei um susto. Escrevi que a etnografia permite perceber as situações de encontro e desencontro da rotina escolar. E, nos meus diários, eu havia registrado dois alunos sentados sozinhos numa biblioteca, sem interagir com ninguém nem entre si, que eu chamei de ilhas afastadas. Escrevi que a etnografia permite reconstruir a linguagem…

  • Educação & Cuidado

    Talvez possa ser caracterizado

    Um menino saiu da biblioteca porque uma menina e dois meninos ficaram zoando o desenho que ele havia feito. Foi isso que aconteceu, e eu vi. E foi assim que eu registrei no meu diário de estágio: Nesta aula presenciei um momento que talvez possa ser caracterizado como bullying. Talvez. Possa. Ser caracterizado. Três atenuações numa frase de doze palavras, para descrever uma criança abandonando uma sala porque outras três riram do trabalho dela. Eu sei de onde vem esse jeito de escrever. Sou servidor público há quase vinte anos e instruo processos. Aprendi, por ofício, que caracterizar errado tem consequência, que adjetivo em documento vira prova, e que quem…

  • Filosofia & Teologia

    Onde as palavras foram gastas

    Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses. A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele. A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime. Continuo achando que as duas estão certas. Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça. Nada disso…

  • Educação & Cuidado

    O nome do goleiro

    Escrevi um trabalho de sociologia sobre um caso de racismo no futebol. Uma torcedora do Grêmio foi flagrada pelas câmeras, durante um jogo contra o Santos, chamando o goleiro adversário de macaco. O caso foi identificado por leitura labial, virou notícia nacional e internacional, e o clube foi eliminado da competição. Reli o trabalho agora. O nome do goleiro não aparece uma única vez. Ele é chamado quatro vezes de “o goleiro santista”. O nome dele é Mário Lúcio Duarte Costa. No futebol, todo mundo o conhece como Aranha. Naquele trabalho, ele não tem nome, não tem carreira, não tem histórico, não tem fala. Não há uma linha sobre o…

  • Artes & Narrativas

    A umidade da tinta

    Há uma ausência que me invade, uma distância silenciosa entre quem sou e quem espero encontrar. Onde estou? Procuro-me entre as palavras, nos fragmentos de cada frase, em cada letra que deixo gravada no papel. Sou a presença que se oculta nas entrelinhas, no vão entre um vocábulo e outro, na umidade da tinta que ainda não secou. O meu autoencontro acontece na exata interseção entre o papel e a caneta, nesse toque simultaneamente sensível e firme, onde cada movimento de caligrafia é um traço incontestável de mim. Encontro-me e perco-me no bloco de notas, no rascunho caótico da vida e nos esboços trêmulos que acabam se tornando definitivos. Investigo…

  • Artes & Narrativas

    O que a fala teme

    O olhar alcança o longe e perscruta o horizonte. Nesse ato de observar há algo que ultrapassa o desejo de ver: é um convite a desbravar a essência. A vida, com os seus limites, muitas vezes parece espremida na frieza de uma tela, restrita a rotinas e ao território comprimido das horas úteis. Diante desse achatamento, cada caractere que nasce na folha em branco é uma ruptura. Escrever é um ato de suprema coragem que revela o que a fala teme e o que o coração insiste em trancar. Cada frase converte-se em uma janela, uma fenda para o mistério. Quando escrevo, o pensamento encontra asilo. Refugia-se na exatidão da…

  • Artes & Narrativas

    Madrugadas de 2006

    Sempre fui habitado por um paradoxo: o anseio pendular entre a distinção e o pertencimento. Desejava ostentar uma singularidade que me destacasse, uma superioridade silenciosa que, em vez de afastar, atraísse os outros. Ao mesmo tempo, mendigava aceitação. Queria diluir-me no grupo, sentir-me parte da tribo, ser igual o suficiente para não sobrar. Esse cabo de guerra me consumia, até que o mundo virtual, com as suas telas protetoras, ofereceu-se como o laboratório perfeito para testar essas facetas. Foi no epicentro dessa busca que as madrugadas de 2006, iluminadas pelo brilho pálido do MSN e do Orkut, surgiram como refúgio. A amizade mediada por redes não era apenas uma fuga:…

  • Artes & Narrativas

    Descobri os blogs

    A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…

  • Filosofia & Teologia

    O corpo não saiu do lugar

    Escrevi há pouco quatro parágrafos sobre a atração. Saíram fáceis. Falavam de uma presença que atravessa o tempo, de uma sedução que não é da aparência, de uma essência que dispensa explicação. Reli e percebi que em nenhum momento eu havia dito o que estava descrevendo. Tinha enobrecido antes de nomear. Nas mesmas semanas, reencontrei três textos antigos. Num deles eu tinha treze anos, e uma menina me pediu uma palavra gentil diante de um espelho. Respondi que era muito controlado, que nada me tirava do controle. Noutro, aos dezesseis, uma moça se inclinou sobre uma mesa a dois passos de mim e ficou ali. Pensei que ela me odiava.…