• Filosofia & Teologia

    Uso público, uso privado

    Resumi para uma disciplina o texto em que Kant pergunta o que é o esclarecimento, e errei justamente a parte que fala de mim. Escrevi que o uso público da razão é a exposição pública do pensamento crítico, e que o uso privado envolve interesses individuais e busca de sobrevivência. Não é isso, e a inversão apaga o que há de mais interessante ali. Para Kant, uso público da razão é o que alguém faz na condição de sábio, escrevendo diante do público leitor. Esse uso deve ser inteiramente livre. Uso privado é o que a pessoa faz dentro de um cargo que lhe foi confiado. E esse pode ser…

  • Artes & Narrativas

    Coma induzido

    Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação não silenciou apenas as páginas digitais, mas o meu próprio espírito. O hiato foi…

  • Educação & Cuidado

    Crawford

    Escrevi um artigo sobre as barreiras que impedem mulheres de chegar a cargos de gestão. O artigo tem uma seção inteira intitulada “Invisibilidade das Contribuições Femininas”. Nela, argumento que o trabalho das mulheres é sistematicamente desvalorizado ou apropriado, e que é preciso criar mecanismos de reconhecimento para romper esse ciclo. E argumento, ao longo do texto, que a teoria de Habermas precisa de uma análise interseccional, porque mulheres negras, pobres e de minorias étnicas enfrentam opressões que se cruzam. No corpo do artigo, o nome aparece corretamente: Kimberlé Crenshaw, 1991. Na lista de referências, está escrito assim: CRAWFORD, Kimberlé. O título do artigo dela está certo. A revista está certa.…

  • Pólis & Gestão

    A autoavaliação que não avalia

    Escrevi duas autoavaliações de disciplina durante a licenciatura, com um ano de diferença. Uma delas é o documento mais honesto que eu já entreguei a uma universidade. A outra não diz absolutamente nada. A primeira é de maio de 2022. O formulário pedia os pontos fracos do meu percurso, e eu respondi com uma lista de marcadores: o retorno presencial depois da pandemia, o acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor, problemas de saúde, mortes na família, dívidas que eu não estava conseguindo pagar. E, num campo sobre estratégias de estudo, escrevi em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico, que eu havia travado. A…

  • Filosofia & Teologia

    Todos disseram a mesma coisa

    Reli, de uma vez, os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia. E encontrei uma coisa que não aparece quando se lê um por vez. No resumo de Nietzsche, concluí que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, moldada pelo contexto cultural e histórico. No resumo de Fourez, concluí que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, sempre relativa a um contexto específico. No resumo de Descartes, concluí que o universo não é apenas criação divina, mas também criação da mente humana, uma realidade construída racionalmente. Três autores. Três séculos diferentes. Três projetos filosóficos incompatíveis entre si. E a mesma frase no…

  • Filosofia & Teologia

    Nem tese nem antítese

    Escrevi, resumindo Hegel, que a dialética dele funciona por tese, antítese e síntese. Escrevi a mesma coisa noutro trabalho, um ano antes, e ali usei aquele esquema para formular uma ideia que eu considero das melhores que já tive. Escrevi que conhecer é também retroceder. Que o caminho do ensino é uma espiral, um encontro de tese e antítese que forma uma síntese, e que a síntese logo vira tese de novo. E concluí: o que permite o progresso é o retrocesso. Continuo achando isso verdadeiro. Só que a tríade não é de Hegel. Aquele esquema de três tempos, com esses nomes, vem de outra linhagem e foi popularizado por…

  • Pólis & Gestão

    A lista

    O que Humphreys produziu, no fim das contas, foi uma lista. Nomes e endereços de homens cuja exposição destruiria a vida deles. Ele nunca a divulgou, e não há registro de que alguém tenha sido prejudicado. Mas a lista existiu, e existiu porque um pesquisador teve acesso a uma coisa que aquelas pessoas só faziam sob a condição de que ninguém soubesse quem eram. E é isso que faz aquele caso continuar servindo cinquenta anos depois, mesmo para quem nunca vai fazer sociologia da sexualidade. Ele descreve uma situação que é bem mais comum do que parece: a de alguém que, por causa da própria posição, vê o que as…

  • Filosofia & Teologia

    O que a síntese não conta

    Resumi para uma disciplina o estudo de Laud Humphreys sobre encontros sexuais anônimos entre homens em banheiros públicos, publicado em 1970. Escrevi que a metodologia foi ousada e controversa, e que o trabalho levanta questões éticas relacionadas à privacidade dos participantes. Está tudo errado por omissão, e a omissão é justamente o que faz aquele estudo ser lembrado. O que aconteceu foi o seguinte. Humphreys se colocou no papel de vigia, a pessoa que fica na porta e avisa quando a polícia se aproxima. Isso lhe deu acesso de observador sem participar dos atos. Até aqui, é observação encoberta de comportamento em espaço público, e há discussão legítima sobre isso.…

  • Educação & Cuidado

    A mesma sala, dois relatórios

    Fourez sustenta que observação não é registro passivo. É atividade interpretativa, moldada por teorias e conceitos que já estão na cabeça de quem olha. O observador não capta o mundo: ele constrói o que vê, a partir do que trouxe. Li isso e resumi para uma disciplina, como se fosse tese alheia. Mas eu tinha, guardada num arquivo, a demonstração. Em 2022 passei meses observando a mesma turma de sétimo ano, numa escola pública de tempo integral, e escrevi dois relatórios com um semestre de diferença. No primeiro, anotei que a maioria dos alunos não conseguia ficar sentada dez minutos, levantando-se nem que fosse para não fazer nada e sentar…

  • Artes & Narrativas

    Eles se afastam lentamente

    Escrevi uma cena de reencontro. Dois antigos amantes, separados havia muitos anos, se encontram por acaso numa biblioteca, numa noite de chuva. Ele a viu antes de ela vê-lo. Chamou o nome dela. Ela se sobressaltou. E aí, nas seis falas que eu escrevi, eles conversam sobre livros. Ela diz que as histórias ecoam em nossas vidas, como se o passado nunca nos deixasse. Ele responde que nunca deixamos o passado para trás de verdade. Ela diz que cada livro guarda um pedaço do que fomos. A rubrica final é esta: em silêncio, eles compartilham um olhar carregado de memórias antes de se afastarem lentamente, perdidos em seus próprios pensamentos.…