• Artes & Narrativas

    Parecia Luma

    Olhos fechados, mergulho na sombra do sonho. Uma névoa branca envolve o verde de um jardim escondido. Ela surge, descalça, num vestido branco. Cabelos longos e encaracolados caem sobre os ombros. Ela dança. Seus pés tocam a grama, desenhando formas invisíveis. Parecia Luma. No solo da Áustria, envolta pela neblina e pela paisagem dos Alpes.

  • Artes & Narrativas

    Você não gosta?

    Eu tinha uns treze anos. Em Gurigica, na antiga casa perto da rua, havia um quarto pequeno, com uma janela direta para a rua e uma porta voltada para a sala. Foi ali que minha bisavó passou os últimos dias. Depois virou quarto de visita. O guarda-roupa era de madeira maciça, desses que não se fazem mais, com um espelho grande no centro. Ela estava de frente para o espelho. Olhava-se com a atenção de quem faz uma pergunta ao próprio reflexo e espera uma resposta que o reflexo não pode dar. Eu olhava diretamente para ela, sem a intermediação do vidro. Ela via uma versão de si mesma. Eu…

  • Artes & Narrativas

    O Chocolate Curvado

    Eu tinha entre dezesseis e dezessete anos e era professor de Escola Dominical para pessoas da minha própria idade. Era no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha, por volta de 2002. Aos domingos subia e descia as escadas do segundo piso com a regularidade das coisas que viram ritual sem que ninguém decrete. A sala de aula ficava em cima. Havia o que aprender, e havia pressa em aprender, porque logo seria preciso ensinar. Depois da Escola Dominical, iríamos desenvolver um trabalho. A maioria tinha faltado. Menos ela. O olhar dela já era afetuoso havia algum tempo. Eu via e não processava. Ou processava e escolhia não saber. Naquele…

  • Filosofia & Teologia

    Sem que eu conhecesse suas vozes

    Quando vou à igreja, não só à minha, mas em especial quando visito outras, levo comigo uma esperança que parece pequena, mas pulsa forte dentro de mim. Uma esperança de que, ali, entre as cadeiras e os cânticos, entre os olhos fechados da oração e os olhos abertos da fé, esteja ela… minha futura esposa. Procurava santidade. Pureza no olhar. Amor pela Palavra. Aquela que fosse, ao mesmo tempo, sensível e firme, com vontade de formar uma família de verdade, no temor do Senhor. Mas, mesmo com tudo isso queimando em mim, ficava parado. Esperava. Pensava: “Se for de Deus, ninguém vai impedir.” E assim me escondia atrás dessa verdade,…

  • Filosofia & Teologia

    O Castelo

    Um castelo que se constrói dentro de si mesmo. Suas bases mergulham profundamente no mistério do espírito, cravadas em uma rocha que transcende o mundo. Essa rocha é viva, pulsante, e seu nome é Vida. Colunas de força invisível conectam a rocha aos recantos mais profundos da alma, onde habitam os depósitos mais preciosos e, paradoxalmente, mais ocultos. As colunas não são vistas, mas nelas reside a sustentação de toda a fortaleza interior. Paredes simbólicas erguem-se entre o interior e o exterior. Elas moldam um espaço onde a alma pode repousar. Dentro dessa fortaleza há um núcleo, onde as paredes se tornam cada vez mais estreitas, conduzindo ao lugar onde…

  • Artes & Narrativas

    Onde ela está

    Era 2005, uma segunda-feira. O relógio marcava por volta das 11h30 da manhã, e o pequeno quarto no Bairro Cariaciquense estava tomado por uma luz intensa. O sol parecia ter descido para dentro da janela. As venezianas quebradas e os vidros soltos na janela balançavam ao sabor do vento, enquanto eu observava o beco à frente. Conseguia ver alguém, ou ao menos achava que via. Quem era? Não sabia. A luz ajudava, mas também atrapalhava. Meus olhos corriam de um lado para o outro, exploravam cada canto. O céu parecia límpido, mas ao baixar o olhar, eu não via pessoas. Apenas morcegos. Eles voavam em uma confusão de asas, como…

  • Artes & Narrativas

    A Chuva

    A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam. Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas foi engolido pelo vento que rugia ao meu redor. O tempo parecia roubar pedaços da alma. Os pulmões, agora assobiando como uma flauta desafinada, eram cúmplices desse momento. O vento rugia como um chamado. Ele não…