• Filosofia & Teologia

    Certeza do leito

    Há uma tensão que arde no interior, um alvoroço silencioso ecoando como chama contida. Uma vontade indomável que se agita, ansiando por algo que ainda recusa um nome. É uma voracidade que traz consigo um repouso inquieto, um pulsar ininterrupto. Como um rio que tem absoluta certeza do seu leito, mas que ainda não abraçou o seu mar. É a materialização de uma lacuna: uma ausência que serve de combustível, transformando a própria falta em força motriz. É o instinto de rastrear a presença exata que servirá de resposta e que, ao ser tocada, silenciará a tempestade. Mas enquanto esse porto não se revela, a odisseia prossegue. Alimenta-se do próprio…

  • Artes & Narrativas

    Fantasmas vegetais

    Te busco com a intensidade de quem sente que cada instante é único e irrepetível. Durante a tarde, quando a energia do mundo ainda pulsa, o teu rastro parece tangível. Na madrugada, a tua presença se expande como o próprio céu noturno, vasta, fria e insondável. Ao amanhecer, na calmaria da primeira luz, essa essência se renova. Os fantasmas que emergem nesse processo assemelham-se a sombras vegetais, formas orgânicas que rasgam o tecido da realidade e carregam a estranheza de um plano onde o visível e o invisível coabitam. Há uma revelação que teima em se adiar, algo que, ao permanecer oculto, ensina a cavar cada vez mais fundo. O…

  • Artes & Narrativas

    O primeiro respiro

    Eu sou aquele ar que silenciosamente se aloja em teus pulmões, o fôlego concedido como um presente invisível. Torno-me o teu primeiro respiro ao emergires à superfície, no instante em que a vida clama e te puxa de volta ao mundo. Sou o suspiro que traz alívio ao peito, a substância que, ao ser absorvida, funde-se à tua própria carne. Quando os teus lábios rompem a água em uma busca desesperada por oxigênio, sou eu quem preenche a tua vontade de viver. Ajo como aquele descanso sutil que passa despercebido na mecânica natural da tua respiração. Não precisas notar a minha presença para que eu continue ali, nutrindo a tua…

  • Artes & Narrativas

    A porta jamais se tranca

    Adentrei o abismo onírico como quem capitula diante do desconhecido, cruzando o limiar de uma porta colossal de madeira envernizada, cujo toque carregava a textura do tempo esculpido. Do outro lado, uma névoa espessa e acinzentada espraiava-se, cobrindo o horizonte. Por um instante, as minhas retinas não captaram nada além da vastidão difusa. Mas um vulto cruzou o espaço, e um vento de cadência grave começou a erguer as cortinas de neblina. À medida que a ventania varria o cenário, a topografia emergia. Eu estava diante de um universo que parecia ser forjado no exato instante em que eu o contemplava. Fendas abissais e picos vertiginosos, rios que serpenteavam rumo…

  • Artes & Narrativas

    Desprovido de pontes

    Estou posicionado do outro lado da margem, desprovido de pontes, contemplando um horizonte que se recusa a ser alcançado. É uma fronteira difusa onde o desejo pulsa, mas permanece represado. Trata-se do vislumbre de um amanhã que acena com a promessa de afeto e de uma liberdade que transcende o movimento geográfico, revelando-se como quietude interior. Habita em mim o paradoxo de querer voar e, ao mesmo tempo, de me recolher. Desejo desbravar rotas desconhecidas, mas sinto a urgência de proteger o que me resta de mais íntimo. Contudo, esse horizonte, por mais carregado de promessas que se apresente, torna-se obsessão. É um sonho que se dilacera ao menor toque,…

  • Filosofia & Teologia

    Fechar as portas de fora

    O inverno é o lembrete de que o tempo não governa apenas a folhinha do calendário. Nos dias mais frios, a cronologia veste-se de quietude. É um repouso forçado que nos convida a fechar as portas de fora e abrir as de dentro. A memória é o cofre da existência, o terreno onde as horas deixam as suas cicatrizes, gravando rostos, instantes e assombros que esculpem a nossa identidade. Pensamos e sentimos dentro dessa linearidade, e as emoções, embora tentem aninhar-se no presente, são invariavelmente atravessadas pelos rastros de um passado que recusa o silêncio. Qual seria, então, a saída? A sabedoria ensina que o segredo não é a evasão,…

  • Artes & Narrativas

    Contemplar e devorar

    A maçã, ali pendurada entre a folhagem, parece guardar no núcleo o segredo da humanidade. Ela nunca foi apenas um fruto: é um artefato simbólico que carrega o peso dos mitos fundadores e a poesia silenciosa do cotidiano. A tez fresca, tingida de um vermelho denso que roça o púrpura e banhada pelo orvalho da manhã, sugere um convite a investigar o que pulsa além da casca. Há nesse fruto um frescor que evoca o princípio de todas as coisas. É como se o momento exato em que o primeiro raio de sol toca a pele da manhã fosse congelado em matéria. É o sabor inaugural, a promessa física de…

  • Artes & Narrativas

    Digitais

    Olhei fundo em teus olhos, e a tua alma me convocava para o abrigo dos teus braços. Um dia vi o teu nome cravado nas constelações e compreendi que a tua morada sempre foi vasta demais para as limitações deste mundo. Então você partiu. Hoje o céu chora a tua ausência, e a chuva derrama-se como se tentasse redesenhar os teus traços em cada gota que toca o chão. Permito que a água me banhe, guardando no silêncio do peito as marcas afiadas da saudade, as digitais de amor que você deixou impressas na minha pele. Prosseguirei de pé, sem temor, até o instante em que o teu olhar se…

  • Filosofia & Teologia

    Um erro de tradução

    Há dias em que a própria presença soa como um erro de tradução no mundo, como se cada detalhe da vida compusesse um cenário hostil onde tudo gravita em harmonia, menos a nossa própria existência. Caminho pelas horas cercado por pessoas que parecem ter nascido com o mapa deste lugar, enquanto algo me empurra para a margem. Eles cintilam como constelações alinhadas, e aqui estou eu, observando a engrenagem da vida girar pelo lado de fora. O espelho, não raro, devolve a imagem de um estranho. Cada tentativa de pertencimento, de forjar um encaixe no molde social, parece um esforço natimorto. Olho ao redor e percebo que a minha coreografia…

  • Artes & Narrativas

    Lá fora, primavera

    Quando o sol entra pela janela do meu quarto, um novo dia floresce em seus raios dourados, e sinto o coração despertar em sintonia com a vida que renasce. A alegria, leve e fresca, é como uma festa que dança no ar e enche meu jardim de promessas. Lá fora, é primavera; dentro de mim, um verão vibrante. Estou aquecido pelo amor, pleno de felicidade. Tudo resplandece em uma beleza intensa, como se visse o mundo pela primeira vez. A primavera vem, e com ela vejo apenas flores, apenas rosas em meu caminho. Sou amado, e essa certeza é o solo fértil da minha existência.