• Artes & Narrativas

    Antes da primavera

    O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar e, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto de alvenaria inacabada. Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita se materializou. Alguém da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir. O convite soou como um…

  • Artes & Narrativas

    Mestre de caminhos

    Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…

  • Artes & Narrativas

    Mestre de caminhos

    Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…

  • Filosofia & Teologia

    Arranhar a superfície

    A vontade é uma chama interior que anseia obstinadamente por algo além de si mesma. Recusando-se a capitular diante do transitório, ela persegue a profundidade: é uma fome feroz por aquilo que é essencial. Quando o nosso querer se alinha ao bem, ele é inundado por um amor que atua como bússola. Não se trata de um espasmo emocional nem de um afeto passageiro, mas de um impulso que aspira à verdade contida nesse bem. O amor converte-se, assim, na argamassa que sustenta a escolha e a torna autêntica. E quando esse amor colide com as pessoas, ele não se contenta em arranhar a superfície. Ele perfura. Apresenta-se como presença…

  • Filosofia & Teologia

    Decantação

    A arte da espera é a prova definitiva da paciência, o solo silencioso onde a sabedoria cria raízes. Saber aguardar não é resignação passiva: exige confiança na direção divina. E essa latência não é um vácuo, mas uma preparação ruidosa por dentro. Ao aceitarmos a quietude, entregamos a Deus a chave para investigar o cofre das nossas motivações. A espera atua como um processo implacável de decantação: as intenções camufladas vêm à tona, os sonhos empoeirados emergem, e o coração passa por uma assepsia. É um espelho que nos convida a encarar a nossa própria essência sem a anestesia da pressa. Longe da inércia, trata-se de um movimento vigoroso do…

  • Artes & Narrativas

    A umidade da tinta

    Há uma ausência que me invade, uma distância silenciosa entre quem sou e quem espero encontrar. Onde estou? Procuro-me entre as palavras, nos fragmentos de cada frase, em cada letra que deixo gravada no papel. Sou a presença que se oculta nas entrelinhas, no vão entre um vocábulo e outro, na umidade da tinta que ainda não secou. O meu autoencontro acontece na exata interseção entre o papel e a caneta, nesse toque simultaneamente sensível e firme, onde cada movimento de caligrafia é um traço incontestável de mim. Encontro-me e perco-me no bloco de notas, no rascunho caótico da vida e nos esboços trêmulos que acabam se tornando definitivos. Investigo…

  • Artes & Narrativas

    Presenças opacas

    Há pessoas que, embora continuem respirando fisicamente ao nosso lado, já partiram. Transformam-se em ausências silenciosas, presenças opacas que ocupam a geografia do ambiente, mas desocuparam completamente o nosso afeto. São rostos em trânsito, vozes que soam como ecos anestesiados, sombras que um dia nos foram vitais e que agora vagam no cenário das nossas vidas como figurantes. Em contrapartida, existe o avesso absoluto: aqueles que, mesmo tendo cruzado a fronteira irreversível da partida, recusam-se a nos deixar. Continuam a habitar o nosso íntimo, cravados no peito como tatuagens invisíveis. Permanecem com uma força que ridiculariza a distância e a morte, mantendo-se inteiros em cada memória e em cada gesto.…