• Educação & Cuidado

    De onde vem essa convicção

    Entrevistei alunos de uma escola durante um estágio supervisionado. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Disseram que não tinham muito interesse, porque não consideravam a disciplina importante. Anotei no relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles. E então escrevi, no meio de um documento acadêmico, uma pergunta que eu não sabia responder: De onde vem esta convicção pragmática em alunos tão novos? Eram meninos e meninas de doze, treze anos. E eles já sabiam, com segurança, qual conhecimento vale e qual não vale. Ninguém nasce sabendo isso. Não existe criança que chegue ao mundo hierarquizando saberes por utilidade. A convicção de que Artes é secundária…

  • Filosofia & Teologia

    Realizar

    Anotei, no fim daquele caderno de observação, uma frase sobre o professor que eu acompanhava: Ele não trabalhava com o conceito de certo e errado. Trabalhava com o realizar as atividades. E anotei também como isso funcionava na prática: ele passava de mesa em mesa atribuindo pontos a quem estivesse desenvolvendo a tarefa. Na época eu li aquilo como escolha pedagógica, e é uma escolha defensável. Em Artes, o certo e o errado são categorias frágeis. Um traço não é falso. Um grafismo não erra a resposta. Avaliar execução em vez de acerto é razoável, e há tradição respeitável defendendo exatamente isso. Hoje eu vejo a outra metade. Aquela turma…

  • Filosofia & Teologia

    7º Ano 1

    Uma coisa pequena me chamou a atenção logo no começo do estágio estágio supervisionado em Teatro, e eu a registrei no diário sem saber por que estava registrando. Na maioria das escolas, a turma se chama 7º Ano A. Um número para o ano, uma letra para a turma. Naquela escola, não. Chama-se 7º Ano 1. Dois numerais. Um para o ano, outro para a turma. Escrevi que aquilo me chamou atenção, e passei adiante. Não tinha nada a acrescentar, porque não tinha instrumento nenhum para pensar aquilo. Era só uma estranheza de nomenclatura, do tipo que a gente nota e esquece. Hoje, eu sei exatamente por que aquilo me…

  • Educação & Cuidado

    Cara de campus

    Escrevi, no meu diário de estágio supervisionado em Licenciatura em Teatro, que a escola em que estava fazendo estágio não tem cara de escola. Tem cara de campus. O prédio não foi pensado para abrigar crianças ou adolescentes. Foi construído para abrigar uma faculdade de cursos da área da saúde, com estudantes adultos que pagavam mensalidade e que atravessavam aqueles corredores para aprender a operar corpos. Quando o Estado assumiu o espaço e instalou ali uma escola pública de tempo integral, fizeram-se adaptações. Pintou-se. Ajustou-se. E, no meu parecer de estagiário, aquilo não foi suficiente para que o lugar tomasse jeito de escola. Está esteticamente bem cuidado. E não alcança…

  • Educação & Cuidado

    A oficina que enlata

    Assisti a uma entrevista com Mestre Calú, mamulengueiro, e escrevi uma resenha. No meio dela, sem perceber que estava fazendo uma objeção séria, escrevi isto: A oficina é o lugar apropriado para transmitir essa responsabilidade. Porém, a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva. É um tempo programado especialmente para aquilo, entrando, querendo ou não, numa matriz curricular. E desse modo a arte torna-se um pouco enlatada. Enlatada. Foi a palavra que me veio, e ela está certa. O mamulengo não se aprendia em oficina. Aprendia-se olhando, no engenho, depois de um dia inteiro de trabalho braçal, com um mestre que brincava a noite toda e um menino ao lado…

  • Filosofia & Teologia

    Sentido único

    Escolhi, numa atividade de disciplina, refletir sobre a palavra sentido. Escolhi porque ela me remetia ao verbo sentir. Escrevi que, quando uma coisa faz sentido, é porque ela consegue mexer com a gente, e que esse mexer não é biológico nem físico: é um sacudir das estruturas internas. Algo faz sentido quando nos move. Move a estrutura. Abala. E depois passei o resto do texto descrevendo, sem perceber, o terceiro significado da palavra. Porque sentido, em português, quer dizer três coisas. Quer dizer significado, como em fazer sentido. Quer dizer sensação, como nos cinco sentidos. E quer dizer direção, como em sentido único, mão e contramão, sentido horário, siga em…

  • Educação & Cuidado

    Sapatilha de ponta

    Em um projeto de curso de dança que desenvolvi, a aula cinco era sobre ballet clássico. Escrevi que exploraríamos os princípios do ballet, como postura, alinhamento e técnicas de ponta. E que faríamos exercícios de barra e de centro, desenvolvendo a técnica e a graciosidade do movimento. Sessenta minutos. Turma de sexto ano. Escola pública. Trabalho de ponta é uma das coisas mais exigentes que existem na dança. Exige anos de preparo anterior, força de tornozelo construída aos poucos, e maturação óssea que nem toda criança de onze anos alcançou. Uma professora de ballet responsável leva anos decidindo quando uma aluna pode subir na ponta, e às vezes decide que…

  • Filosofia & Teologia

    Onde as palavras foram gastas

    Naquele trabalho sobre racismo no futebol, eu defendi duas teses. A primeira: que o racismo é aprendido, que a torcedora não nasceu racista, que a sociedade formou nela aquele modo de pensar e depois a puniu por ele. A segunda: que a punição extrajudicial foi desproporcional, que ameaça de morte e ataque à casa de alguém também são crime, e que não se pune crime com crime. Continuo achando que as duas estão certas. Racismo é aprendido, e culpar exclusivamente o indivíduo isola o problema num único rosto e absolve a estrutura que o produziu. Linchamento moral é violência, e as consequências que ele produz não são justiça. Nada disso…

  • Pólis & Gestão

    Autoridade de crachá

    Nas relações institucionais marcadas por forte assimetria de poder, surgem dinâmicas que subvertem o propósito central da gestão. Quando um chefe opta por desvalorizar o trabalho de um subordinado em público, o ato revela infinitamente mais sobre o caráter de quem fala do que sobre a competência de quem ouve. Não é um deslize de comunicação: é o reflexo de como a autoridade, quando desprovida de ética, converte-se em ferramenta de manipulação. As relações de trabalho intensificam a vulnerabilidade das pessoas, porque colocam em jogo a autoimagem, o respeito e a sobrevivência profissional. E quando um chefe se permite ridicularizar alguém sob a bandeira da transparência, ele aciona uma das…

  • Pólis & Gestão

    A forma sobre a intenção

    Os modelos de gestão operam em duas dimensões: a forma e a função. A própria noção de modelo sugere um molde, uma estrutura pré-definida que, embora adaptável a cenários variados, remete a um ideal normativo. Ele estabelece um padrão a ser seguido, balizando ações, decisões e estratégias. O perigo intrínseco a essa conceituação é que, dentro dessa estrutura, a forma frequentemente impõe soberania sobre a intenção. A rigidez do processo acaba subordinando e engessando o objetivo final da organização. Para contornar essa armadilha, os modelos mais maduros não se limitam à estética dos processos: buscam a integração entre forma e função. Se a perspectiva estrutural prioriza a organização e a…