• Filosofia & Teologia

    Qual parte é arbitrária

    Foucault propõe uma pergunta de trabalho, e ela é a ferramenta mais útil que eu encontrei em um ano de leituras. Naquilo que nos é apresentado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte singular, contingente e produzida por imposições arbitrárias? Traduzindo para a linguagem de quem trabalha em repartição: isto aqui, que todo mundo trata como se fosse assim mesmo, precisa mesmo ser assim? Passei este ano relendo vinte anos de arquivos meus, e só agora percebo que fiz exatamente isso, sem o nome. Anotei, num diário de campo, que a coordenadora de uma escola abriu quatro portas até encontrar uma sala vazia. Registrei como detalhe de acolhimento.…

  • Filosofia & Teologia

    Depois do diagnóstico

    A crítica mais comum à Dialética do Esclarecimento é que ela não oferece saída. O livro mostra como a razão que prometia libertar virou instrumento de dominação, como a cultura virou indústria, como o indivíduo foi sendo esvaziado. E termina sem programa. Sem proposta. Sem o que fazer na segunda-feira. Isso costuma ser dito como acusação, e não é injusto. Mas é o meu problema também, e é por isso que eu preciso escrever sobre ele. Escrevo uma tese sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Descrevo uma jaula. Mostro como decisões que ninguém votou passaram a organizar o dia de estudantes e professores, e como o indicador foi tomando…

  • Filosofia & Teologia

    A razão instrumental no púlpito

    Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle. Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural. E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever. Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber. Não é isso, e a…

  • Educação & Cuidado

    Dez minutos

    No meu diário de estágio, em 2022, escrevi o seguinte sobre a turma que eu observava: Na sala de aula a maioria dos alunos se levanta da cadeira. Não conseguem ficar sentados por dez minutos sem se levantar, nem que seja para não fazer nada e sentar novamente. A observação está certa. Foi o que eu vi, várias vezes, durante semanas. Anotei também que o professor concentrava a parte teórica sempre no início da aula, e supus o motivo: os alunos não conseguiam prestar atenção por muito tempo. Anotei que nos momentos teóricos eles perdiam a atenção com facilidade, que conversavam muito, que o professor avaliava mais o aspecto prático.…

  • Filosofia & Teologia

    Construção não quer dizer invenção

    Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico. Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa. Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu. Isso continua verdadeiro e continua necessário. Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar…

  • Filosofia & Teologia

    O bloco

    Encontrei um projeto de pesquisa que escrevi e em que a mesma citação aparece, palavra por palavra, quatro vezes. Não é uma citação. É um bloco de dezesseis autores entre parênteses: Aristóteles, Comte-Sponville, Dewey, Foucault, Gadamer, Habermas, Jaeger, Kant, MacIntyre, Nietzsche, Platão em duas edições, Rawls, Rousseau, Sartre, Singer e Valls. Dezesseis nomes, colados no fim de um parágrafo, e depois no fim de outro, e depois de outro. E há uma versão reduzida do mesmo bloco, com quatro nomes, que aparece umas doze vezes no documento. Nenhuma dessas citações remete a uma página. Nenhuma sustenta uma afirmação específica. Nenhuma poderia ser conferida, porque não há o que conferir: são…

  • Filosofia & Teologia

    A defesa que entrega o jogo

    Num ensaio sobre teatro na educação inclusiva, defendi o teatro assim: Que ele desenvolve habilidades comunicativas, sociais e emocionais. Que promove empatia. Que constrói autoconfiança e autonomia. Que estimula a criatividade. Que contribui para uma comunidade escolar mais tolerante. Tudo isso é verdade, e cada afirmação daquelas tem pesquisa por trás. E, somadas, elas entregam o jogo. Porque nenhuma delas fala do teatro. Todas falam do que o teatro produz depois de terminado. Repare no que a lista faz: ela justifica a existência de uma arte na escola mostrando que ela serve para outra coisa. Comunicação, socialização, autoestima, tolerância. Nenhuma dessas coisas é teatro. São efeitos colaterais desejáveis. E quando…

  • Artes & Narrativas

    Quando a técnica esconde

    Num ensaio sobre cinema, registrei uma objeção que alguns críticos fazem ao plano-sequência: que a proeza técnica pode servir para encobrir a falta de conteúdo do roteiro, produzindo uma ilusão de complexidade e sofisticação. Escrevi isso num parágrafo e voltei a elogiar o filme no seguinte. Mas a objeção é séria, e ela não é sobre cinema. Existe um tipo de virtuosismo que funciona como distração. A câmera não corta durante vinte minutos, e o espectador fica tão ocupado admirando o feito que não pergunta se aquelas vinte cenas tinham o que dizer. A dificuldade da execução passa a valer como qualidade da obra. É um truque antigo e não…

  • Pólis & Gestão

    Pontos fracos em seu percurso

    O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso. Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra. Eu respondi com uma lista de marcadores. O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar. Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o…

  • Filosofia & Teologia

    A gramática e o poeta

    Numa resenha sobre teatro de bonecos, escrevi uma analogia que corrige uma coisa que venho dizendo há dez anos. A técnica, no teatro de formas animadas, funciona como as regras da gramática funcionam para o poeta. O poeta precisa dominar a gramática para conseguir o que pretende. Mas se ele não tem o que dizer, o instrumento gramatical fica estático. E completei: a gramática é seca e rígida, mas quando o espírito se manifesta dentro dela, a dinâmica traz singeleza e leveza. Isso contradiz, ou pelo menos complica, quase tudo o que eu venho escrevendo sobre forma. Em 2013 escrevi que o perigo dos modelos de gestão é a forma…