• Artes & Narrativas

    O boneco está na sala

    Escrevi, num comentário de disciplina sobre teatro de formas animadas, uma frase que continuo achando a coisa mais precisa que já disse sobre arte: O objetivo não é tirar as pessoas da realidade e transportá-las para um mundo fictício. É fazer o caminho inverso: trazer o mundo fictício para dentro da realidade das pessoas. Formas animadas é o nome técnico do teatro de bonecos, de objetos e de sombras. E é a única linguagem cênica em que essa inversão é literal. Porque o boneco está na sala. Ele não é imagem de um boneco. É um objeto físico, com peso, feito de pano ou madeira, que ocupa espaço no mesmo…

  • Filosofia & Teologia

    O diagnóstico de 2001

    Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade. A fonte era um texto de 2001. E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa. O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto. Mas isso explica…

  • Filosofia & Teologia

    A metodologia comporta o desejo

    Num relatório de estágio, entre uma consideração sobre jogos teatrais e outra sobre cultura local, eu escrevi a tese central de tudo o que viria a pesquisar depois. Está assim: A metodologia é uma invenção que cria limites para que o aluno possa chegar onde o professor deseja que ele chegue. A metodologia comporta dentro de si mesma o desejo. Ela em si é crua e seca, mas há um sentimento pulsante dentro dela, pois deseja levar a experiência a um determinado lugar, em busca de um resultado já conhecido. E completei, na sequência: a metodologia não permite a construção do novo, apenas uma inovação. Permite aperfeiçoamento, mas não criação.…

  • Educação & Cuidado

    Além do utilitário

    Num comentário de disciplina, escrito às pressas depois de assistir a um vídeo de Ana Mae Barbosa, eu formulei sem perceber o problema que viria a estudar pelo resto da vida. A frase está lá, no fim do parágrafo, precedida de dois pontos: Este é o desafio do meu estágio: levar o aluno a reconhecer a beleza da arte, além da perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. A perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. Eu tinha trinta e sete anos, estava no meio de uma licenciatura a distância e comentava um vídeo obrigatório. E nomeei, em oito palavras, o adversário. Não era uma abstração. Eu tinha acabado de encontrá-lo, em…

  • Filosofia & Teologia

    Contaminação

    Existe uma palavra que a pedagogia das artes usa com carinho e que eu já não consigo mais ouvir do mesmo jeito. Contaminação. No vocabulário da arte-educação e do teatro, contaminar é bom. Significa a passagem de uma linguagem para dentro de outra, a mistura fértil, o transbordamento que impede que cada disciplina fique trancada no próprio quadrado. Uma aula de dança contaminada de teatro. Um texto contaminado de música. Um corpo contaminado pelo espaço em que está. A palavra foi escolhida justamente por ser transgressora. Ela vinha da biologia, do campo da doença, e era trazida para a arte de propósito, como quem rouba um termo do inimigo e…

  • Pólis & Gestão

    A assinatura

    Quando terminei o primeiro estágio, continuei frequentando as aulas do professor de Artes. Não era obrigado. Fiz de propósito, para não perder o contato, para que quando chegasse a hora do estágio dois eu já tivesse vínculo com a escola e não precisasse recomeçar as articulações do zero. Foi uma estratégia razoável, e ela não funcionou. A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro. Liguei várias vezes para a direção. Mandei mensagem pelo aplicativo. Não obtinha resposta. Quando obtinha, a resposta era que iriam assinar. E não assinavam. E aí veio o pior. O professor me pediu que eu não fosse mais às aulas, até que o…

  • Pólis & Gestão

    Quarenta e cinco horas

    A disciplina de Estágio Supervisionado 2 exigia quarenta e cinco horas de regência. O professor da escola me ofereceu duas aulas por turma. Eram seis turmas. Duas aulas de cinquenta minutos cada. Seiscentos minutos. Dez horas. Quarenta e cinco exigidas. Dez disponíveis. Anotei a diferença no relatório e escrevi, na frase seguinte, a única coisa que dava para escrever: considerando toda a dificuldade em se encontrar um estágio, aceitei a proposta. Aceitei porque a alternativa era não ter estágio nenhum. Eu havia procurado várias escolas antes. Várias me recusaram. Aquela foi a última que procurei e a única que me acolheu, e eu já tinha atravessado, no semestre anterior, um…

  • Educação & Cuidado

    Quinze a vinte minutos

    A última frase do meu relatório de estágio dois é esta: Observei que a retenção de atuação das turmas é de quinze a vinte minutos por aula. Neste sentido trabalharei dentro desta perspectiva. Vinte e nove palavras, e elas registram a única coisa que eu de fato aprendi naquele ano. Meses antes, no primeiro estágio, eu havia escrito sobre a mesma turma que os alunos não conseguiam ficar sentados dez minutos e que aquilo era uma característica comportamental que deveria ser trabalhada. Trabalhada em quem, eu não disse. Mas a frase deixava claro: o problema estava neles, e a solução era corrigi-los. E aí, no relatório seguinte, sem nenhum anúncio,…

  • Filosofia & Teologia

    Projeto de vida

    Numa das respostas daquele questionário, transcrevi um trecho da Base Nacional Comum Curricular: É papel da escola auxiliar os estudantes a aprender a se reconhecer como sujeitos, considerando suas potencialidades e a relevância dos modos de participação e intervenção social na concretização de seu projeto de vida. E comentei favoravelmente. Escrevi que o projeto de vida vem ao encontro da necessidade das juventudes, que a escola possui as ferramentas para mediar a conexão dos estudantes com o espaço e com o outro, e que isso promove equidade, diversidade e protagonismo. Foi o que eu pensei em 2022. Hoje eu leio a mesma frase e reparo em outra coisa. Ela pede…

  • Pólis & Gestão

    O documento que ninguém escreveu

    Duas observações do meu relatório de estágio, feitas com quinze dias de diferença, dizem a mesma coisa. A primeira: o projeto de desenvolvimento institucional da escola é fechado e exclui os agentes da escola de participar diretamente da sua construção. A segunda: o professor não segue o projeto de desenvolvimento institucional, e defende autonomia para escolher os conteúdos que ministra. Ninguém precisa de mestrado em gestão pública para ligar as duas frases. Mas eu tenho um, e foi ele que me fez escrever as duas. Um documento de planejamento redigido sem as pessoas que vão executá-lo não é ignorado por rebeldia. É ignorado porque não foi feito para ser executado.…