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A lista
O que Humphreys produziu, no fim das contas, foi uma lista. Nomes e endereços de homens cuja exposição destruiria a vida deles. Ele nunca a divulgou, e não há registro de que alguém tenha sido prejudicado. Mas a lista existiu, e existiu porque um pesquisador teve acesso a uma coisa que aquelas pessoas só faziam sob a condição de que ninguém soubesse quem eram. E é isso que faz aquele caso continuar servindo cinquenta anos depois, mesmo para quem nunca vai fazer sociologia da sexualidade. Ele descreve uma situação que é bem mais comum do que parece: a de alguém que, por causa da própria posição, vê o que as…
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O que a síntese não conta
Resumi para uma disciplina o estudo de Laud Humphreys sobre encontros sexuais anônimos entre homens em banheiros públicos, publicado em 1970. Escrevi que a metodologia foi ousada e controversa, e que o trabalho levanta questões éticas relacionadas à privacidade dos participantes. Está tudo errado por omissão, e a omissão é justamente o que faz aquele estudo ser lembrado. O que aconteceu foi o seguinte. Humphreys se colocou no papel de vigia, a pessoa que fica na porta e avisa quando a polícia se aproxima. Isso lhe deu acesso de observador sem participar dos atos. Até aqui, é observação encoberta de comportamento em espaço público, e há discussão legítima sobre isso.…
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Dez minutos
No meu diário de estágio, em 2022, escrevi o seguinte sobre a turma que eu observava: Na sala de aula a maioria dos alunos se levanta da cadeira. Não conseguem ficar sentados por dez minutos sem se levantar, nem que seja para não fazer nada e sentar novamente. A observação está certa. Foi o que eu vi, várias vezes, durante semanas. Anotei também que o professor concentrava a parte teórica sempre no início da aula, e supus o motivo: os alunos não conseguiam prestar atenção por muito tempo. Anotei que nos momentos teóricos eles perdiam a atenção com facilidade, que conversavam muito, que o professor avaliava mais o aspecto prático.…
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Todos os homens desejam conhecer
A Metafísica de Aristóteles começa com uma das frases mais famosas já escritas: Todos os homens, por natureza, desejam conhecer. Não é uma exortação. É uma afirmação factual sobre a espécie. Ele a apoia no prazer que temos com os sentidos, sobretudo com a visão, que buscamos mesmo quando não vai servir para nada. Li isso e resumi para uma disciplina. E, um ano antes, eu havia entrevistado uma turma de sétimo ano numa escola pública de periferia. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Responderam que não consideravam importante. Anotei no meu relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles, e escrevi uma pergunta que não…
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Deslumbramento
Aristóteles diz, na Metafísica, que os homens começaram a filosofar por espanto. Primeiro diante das dificuldades imediatas, depois avançando pouco a pouco para questões maiores. Espanto é o ponto de partida do conhecer. Não a necessidade, não a utilidade, não o método: o assombro diante de uma coisa que a pessoa não entende. E ele acrescenta uma observação que quase ninguém cita: o conhecimento dissolve o espanto de propósito. Dá o exemplo da diagonal do quadrado, que não pode ser medida pela mesma unidade do lado. No começo, isso é espantoso. Depois que se conhece a demonstração, espantoso seria o contrário. Ou seja: para Aristóteles, o espanto é o combustível…
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As parteiras
Na Viena da década de 1840, o hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. Guarde a segunda frase, porque ela costuma passar em branco quando a história é contada. O setor com menos formação, menos prestígio, menos salário e nenhum acesso à sala de autópsia tinha um quarto dos mortos do setor prestigiado. E aquilo durou anos sem que ninguém investigasse. Não é que os dados estivessem escondidos. Estavam no registro do hospital, e as próprias parturientes conheciam a…
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Por que ninguém lavou as mãos
Hempel abre o capítulo sobre investigação científica com Ignaz Semmelweis, e usa o caso para mostrar como se formula e se testa uma hipótese. Resumi o capítulo para uma disciplina e mencionei a história sem contá-la. Vale contar. Viena, década de 1840. O hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. As mulheres sabiam disso. Imploravam para ser levadas à segunda ala, e algumas preferiam dar à luz na rua a entrar na primeira. Semmelweis foi eliminando hipóteses, uma por…
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Construção não quer dizer invenção
Escrevi, resumindo um livro de filosofia da ciência, que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, e que ela é sempre relativa a um contexto específico. Está fiel ao autor. E, solta desse jeito, é uma frase perigosa. Porque em 1995, quando aquele livro chegou ao Brasil, dizer que a objetividade é construída servia para uma coisa: lembrar que cientistas são gente, que trabalham dentro de instituições, com financiamento, disputa e vocabulário herdado, e que a ciência não desce pronta do céu. Isso continua verdadeiro e continua necessário. Só que hoje a mesma frase circula com outra função. Ela virou a chave universal para descartar…
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A mesma sala, dois relatórios
Fourez sustenta que observação não é registro passivo. É atividade interpretativa, moldada por teorias e conceitos que já estão na cabeça de quem olha. O observador não capta o mundo: ele constrói o que vê, a partir do que trouxe. Li isso e resumi para uma disciplina, como se fosse tese alheia. Mas eu tinha, guardada num arquivo, a demonstração. Em 2022 passei meses observando a mesma turma de sétimo ano, numa escola pública de tempo integral, e escrevi dois relatórios com um semestre de diferença. No primeiro, anotei que a maioria dos alunos não conseguia ficar sentada dez minutos, levantando-se nem que fosse para não fazer nada e sentar…
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Um pastor que tem consciência por mim
Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos. Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo. O segundo exemplo é o meu ofício. Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que…





























