Filosofia & Teologia
A Lente Investigativa e Espiritual. Profundidade, sentido, rigor acadêmico. Aqui reside a sua busca pela verdade, pelo sentido e pelas bases do pensamento humano e divino. É o seu espaço de maior densidade teórica. Abarca seus papéis de: Filósofo, Teólogo e Pesquisador. O que entra aqui: Ensaios sobre epistemologia, análises éticas, estudos teológicos aprofundados, recortes da sua pesquisa acadêmica de doutorado e reflexões sobre a condição existencial humana.
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Promessas que deixamos prescrever
À medida que os anos avançam, a vida desdobra-se como um tribunal silencioso, onde as sentenças por tudo aquilo que deixamos de fazer tomam forma. Cada ano acrescentado à nossa biografia traz uma lucidez implacável, que nos confronta com os passos que a hesitação abortou e com as palavras que sufocamos no instante exato em que o mundo pedia a nossa voz. Esses vereditos não gritam. Sussurram no fundo da consciência, e convocam a um inventário íntimo, onde revisamos quem fomos com a vista cansada de quem já sabe o que poderia ter sido. A cada novo ciclo, carregamos o peso das escolhas acovardadas, das promessas que deixamos prescrever e…
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Alvenaria existencial
Não nascemos prontos. Somos projetos em rascunho, esboços de vastas possibilidades, e é precisamente nessa incompletude que reside a nossa maior grandeza: a abertura para o novo e para a construção intencional do próprio destino. A felicidade não é um bilhete premiado caído dos céus. É alvenaria existencial: ergue-se nas atitudes que tomamos, na liberdade de dominar o nosso próprio tempo, no cultivo de uma vida grata. E ela só atinge o seu ápice quando a nossa presença torna o fardo do outro mais leve.
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Sem parecer e sem formosura
A complexa relação da sociedade com a feiura vai muito além da estética: ela revela as várias formas de miséria que habitam a condição humana. O que rotulamos como feio muitas vezes começa no incômodo com o corpo fora do padrão, mas logo avança para outras camadas: a pobreza financeira, a saúde debilitada, a falta de verniz social, o desequilíbrio emocional. Cada uma dessas fraturas carrega a marca da falta, e por isso incomoda tanto. A conclusão do sistema é gélida: onde a cultura não encontra a beleza do sucesso ou o valor da utilidade, não encontra também lugar para o acolhimento. A imperfeição torna-se um erro na engrenagem, a…
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As paralisias que consentimos
Na ausência há um gosto férreo que recusa nos abandonar. É o sabor amargo da impossibilidade, o ressoar de uma partitura que poderia ter sido tocada e que silenciou. A ausência nunca é apenas uma falta: é uma presença dilacerante que se impõe nos intervalos, uma sombra espessa feita de escolhas não vividas, de gestos abortados e de palavras que morreram na garganta antes de ganharem o mundo. Carregar essa ausência é transitar por um deserto interno onde cada grão de areia é a fratura de uma memória. Surge, a cada passo, o eco da fantasia: o desejo de varar o passado e torná-lo matéria dócil, a vontade de costurar…
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A claridade arde
Cheguei à filosofia em 2008, pelos cursos de Olavo de Carvalho. Os autores mencionados aqui eu conheço por essa via, e não por leitura direta. O sol, estrela grandiosa que queima com fulgor indomável, carrega seus limites no abraço que dá à Terra. Ele reina como um soberano que ilumina sem jamais tocar, um centro de gravidade que atrai e transforma. E sua majestade nos lembra continuamente de que há algo além de sua própria luz. Como Platão ensinou, o sol visível é um prenúncio, uma pálida lembrança da Forma pura que está além de tudo o que brilha neste mundo. Há uma tragédia humana na relação com a claridade:…
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O cronograma pessoal
A paciência é a porta de entrada para o verdadeiro entendimento de quem serve a quem. Quando nos debruçamos sobre a nossa própria pressa, somos confrontados com uma dura realidade sobre a servidão: um coração incapaz de suportar a demora revela uma alma que ainda não foi moldada pela quietude. Viver sem paciência é inaugurar, aqui e agora, o inferno da inquietação. Sem ela, transformamos o próprio peito em um terreno instável, um solo árido onde a paz prometida por Deus não consegue criar raízes. O impaciente sofre uma miopia espiritual: não consegue enxergar que o peso que esmaga o seu peito é, muitas vezes, colocado por ele mesmo. No…
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Querer e rejeitar as mesmas coisas
“Querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas: nisso, enfim, está a amizade firme.” A frase é de Salústio, na Conjuração de Catilina. Ela passa longe de um mero alinhamento de preferências ou de afinidades de salão. Trata-se da união de duas vontades que, ao colidirem no tempo, criam um espaço onde cada desejo e cada aversão ecoam de forma harmônica. É onde duas identidades se reconhecem e, ao partilharem uma fome comum pelo bem e pela verdade, tornam-se cúmplices. Querer as mesmas coisas é enxergar no outro o espelho da própria sede por aquilo que é imutável. É como se as almas de dois amigos, ao se alinharem,…
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A fratura do outro
Há uma beleza singular no retorno. Sentir o peso leve de estar em casa, recolher as correspondências adormecidas sob a porta, escancarar as janelas para o vento. Voltar é também o assombro de reassumir com doçura o que antes nos parecia um fardo. É sorrir diante dos objetos largados sobre a cama no instante da partida, naquela urgência desordenada de quem nunca está verdadeiramente pronto para a ausência. Desfazer as malas é um ato de simplicidade que ancora o ser humano no presente: ao recolocar as roupas no armário, aceitamos o que ficou para trás. Neste parêntese entre a partida e o regresso, vivenciei um tempo denso. Um tempo de…
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Um erro de tradução
Há dias em que a própria presença soa como um erro de tradução no mundo, como se cada detalhe da vida compusesse um cenário hostil onde tudo gravita em harmonia, menos a nossa própria existência. Caminho pelas horas cercado por pessoas que parecem ter nascido com o mapa deste lugar, enquanto algo me empurra para a margem. Eles cintilam como constelações alinhadas, e aqui estou eu, observando a engrenagem da vida girar pelo lado de fora. O espelho, não raro, devolve a imagem de um estranho. Cada tentativa de pertencimento, de forjar um encaixe no molde social, parece um esforço natimorto. Olho ao redor e percebo que a minha coreografia…
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Soberania sobre as próprias horas
O mundo corre, mas quem decretou que precisamos correr com ele? Talvez seja esse o descompasso entre o corpo e o coração que nos causa um cansaço tão profundo, essa sensação crônica de atropelo nos próprios passos. Já me peguei questionando o espelho: sou eu que estou parando, ou é a vida que acelerou até perder o sentido? O corpo, treinado pelo mundo, quer pressa. Exige agenda, mantém-se em passos largos e tenta sobreviver à métrica implacável da produtividade. Já o coração é um peregrino de passadas suaves, que caminha no compasso do amor miúdo e da descoberta sutil. O coração recusa a urgência: sobrevive de aproximações e de demoradas…




























