• Filosofia & Teologia

    Escrita sem borracha

    “Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é desconhecido. Estou entre o “ir” e o “chegar”, preso a essa linha tênue onde tudo parece avançar e ao mesmo tempo…

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    O que não exige raízes

    A vida, em sua essência, é um chamado à frutificação. Quando cuidamos dela com zelo, os frutos que colhemos carregam significado. Cada ato de cuidado se transforma em um gesto de criação, como quem desenha no tempo uma obra. Nos dias de hoje, a experiência de vida é confundida com experiências que apenas desgastam. Caminhos que prometem intensidade e atraem com promessas de liberdade acabam por ser laços que nos prendem à superficialidade. O que nos atrai para esse vazio? Talvez uma força que nos prende ao visível, como se o imediato fosse o limite da existência. A frutificação da vida exige um cuidado atencioso, uma disposição interior para o…

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    O que posso transformar em mim

      O que é, afinal, essa vida que vivemos? Somos jogados entre tantas mudanças, em meio a desgraças e bênçãos que se entrelaçam de forma caótica. O que significa ser íntegro em uma sociedade que parece desintegrar-se a cada dia? Como cultivar valores em um ambiente onde a essência humana se dissolve? De que adianta planejar o futuro, se os projetos de tantos parecem caminhar rumo à própria ruína? E então me pergunto: o que posso transformar em mim que permita a mudança no outro? Viver é respirar com propósito e fazer do próprio ser um canal de vida para os outros. O mundo, com seu sistema de morte, sufoca…

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    Seria alienação?

    Desde os tempos mais remotos, os homens experimentaram a presença de Deus. Os primeiros homens, imersos em um mundo inexplorado e indomável, eram profundamente religiosos. Diante das forças da natureza, as chuvas, os trovões, o brilho do sol, o mistério da lua e das estrelas, o homem primitivo sentia algo além de si, algo grandioso e inefável, e reverenciava essa força superior. O homem moderno parece ter perdido esse contato direto com a natureza. Vivendo em cidades de concreto, isolado pela tecnologia e pelas preocupações imediatas, sua sensibilidade diminui. O que antes era uma ponte para o divino, para o mistério, tornou-se um cenário indiferente. Não nos propondo ao panteísmo,…

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    Cinco minutos

    Ainda bem que o tempo passa. Já imaginou o desespero se tivéssemos de suportar uma segunda-feira eterna? Há um alívio imenso no movimento dos dias. A beleza de cada instante só se revela porque ele não permanece, porque sua natureza é fugaz. Conta-se que havia uma menina que se encantava todas as manhãs com a visita de um pássaro. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto breve, não durava mais do que cinco minutos, mas esses cinco minutos eram suficientes para aquecer o dia inteiro. Certo dia, o desejo de prolongar aquela beleza tomou conta dela. Resolveu capturá-lo, colocou-o em uma gaiola para que pudesse ouvir…

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    Um grito sem eco

    Quem pode responder minhas perguntas? De onde vim? Por que nasci? Para onde vou? Qual o propósito da minha existência? Por que o mal, o sofrimento e a morte me cercam? Essas questões ecoam em minha mente como um sussurro constante, impossível de ignorar. Não consigo viver com a simplicidade dos animais, que parecem livres dessas inquietações. Busco respostas, mas a cada descoberta encontro um novo abismo de dúvidas. Filosofia e religião oferecem teorias, mas cada uma me faz tropeçar em um novo mistério. A realidade parece crua: nasci por acaso, vivo por necessidade, e um dia, inevitavelmente, desaparecerei. Poderia não ter nascido; poderia não estar vivendo agora. Mas não…

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    O medo de ser livre

    Jesus declarou que veio libertar os cativos, dissolver as correntes invisíveis que prendem o homem ao mundo e a si mesmo. Uma liberdade que confronta e desafia o medo. Quando o Espírito de Deus age no homem, ele é liberto do medo que o paralisa, que o reduz a buscar refúgio apenas naquilo que seus olhos podem ver e suas mãos podem tocar. O homem sem Cristo carrega o peso do medo de ser livre. Ele se agarra às coisas que o mundo oferece, teme se render a uma liberdade que não controla. Busca segurança no que pode possuir e naquilo que pode mensurar. Há uma certa tranquilidade em crer…

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    Uma teoria bonita, porém frágil

    Há uma crença entre os religiosos, quase um axioma, que insiste: devemos acreditar no impossível. Dizem isso com convicção, como uma verdade que ultrapassa a razão. Mas o que acontece quando essa crença precisa virar ação viva? É uma tarefa fácil, quase trivial, falar de fé ao outro. Exortar alguém a confiar naquilo que não vê é um exercício seguro quando estamos de fora. Contudo, quando o impossível se aproxima de nós com sua face fria e densa, nossas palavras titubeiam. A fé, tão valente em teoria, começa a oscilar. Então construímos uma fé ao avesso: passamos a acreditar apenas no que vemos e a duvidar do que é invisível.…

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    O corpo não saiu do lugar

    Escrevi há pouco quatro parágrafos sobre a atração. Saíram fáceis. Falavam de uma presença que atravessa o tempo, de uma sedução que não é da aparência, de uma essência que dispensa explicação. Reli e percebi que em nenhum momento eu havia dito o que estava descrevendo. Tinha enobrecido antes de nomear. Nas mesmas semanas, reencontrei três textos antigos. Num deles eu tinha treze anos, e uma menina me pediu uma palavra gentil diante de um espelho. Respondi que era muito controlado, que nada me tirava do controle. Noutro, aos dezesseis, uma moça se inclinou sobre uma mesa a dois passos de mim e ficou ali. Pensei que ela me odiava.…

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    O que fica atrás

    Passei as últimas semanas relendo textos que escrevi em 2006. São memórias de infância e adolescência, quarenta e poucas, que ficaram guardadas vinte anos sem que eu soubesse dizer por quê. Ao reabri-las, encontrei uma coisa que não esperava. Quase todas terminavam explicando. Um caixão branco no velório de um colega de primeira série, e logo depois um parágrafo sobre a fragilidade da vida. Um prego atravessando o pé de uma criança que brincava de navio, e logo depois um parágrafo sobre os buracos do caminho. Uma professora gritando comigo diante da turma, e logo depois três parágrafos sobre o que é ensinar de verdade. Levei algum tempo para entender…