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Um continente numa aula
Escrevi um projeto de curso de dança para uma turma de sexto ano. Dez aulas, uma por semana, de junho a agosto. A aula quatro chamava-se “danças folclóricas do mundo”. E o conteúdo previsto era este: aprendizado de dois movimentos típicos e dos aspectos culturais que envolvem a Hula e as danças africanas. Hula e danças africanas. Uma coisa é a dança de um arquipélago específico, o Havaí, com nome próprio e tradição rastreável. A outra é um continente com cinquenta e quatro países. Coloquei as duas lado a lado, como se fossem itens equivalentes de uma lista, e reservei sessenta minutos para as duas. Sou coordenador adjunto do núcleo…
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Eram apenas palavras
Havia um homem que não se diferenciava dos demais, exceto por uma marca invisível cravada no centro do peito: uma ferida sem nome, sem sangue e sem cura aparente. Um dia, ao estender a mão em busca de conexão, encontrou o vácuo da recusa. Não houve explicações nem ruídos, apenas o frio súbito do não-acolhimento e o eco de portas que se fecham em silêncio. Foi ali, no impacto da rejeição, que ele encontrou a entrada da caverna. Não havia mapas nem placas de advertência, apenas um portal aberto por uma dor tão profunda que ele não encontrou forças para declinar. Lá dentro, o tempo perdeu o compasso e o…
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O relógio
Sobre 2008 e 2009. Eu estava ansioso. Depois daquele domingo, entendi que o problema era eu. A roupa, o cabelo, o jeito de falar. Se era isso, era isso que eu tinha que resolver. Comprei um relógio caro que não precisava comprar. Comprei na Amazon, que na época era só a americana, ainda não havia a brasileira. Um relógio suíço. Na foto ele parecia grande. Quando chegou, era pequeno, parecido com relógio feminino. Comprei outro, da mesma marca, grande. Esse ficou parado na alfândega. A UPS me mandou uma mensagem. Paguei oitocentos reais de imposto para resgatar o relógio. Achava que com aquele relógio as pessoas iriam olhar para mim.…
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Eu acreditei
Estive em uma relação que eu pensava ser amizade. Ele era sozinho. Tinha dificuldade de fazer amigos por perto, e eu não fui escolha, fui o que tinha. Mas eu pensava que era amizade. Era uma amizade nutrida pela economia. Ele pagava com um dinheiro que não era dele, e eu não conseguia enxergar que ele não tinha, que a fonte era o pai. Ele não sabia o valor do que tinha, e eu não sabia da fonte. Por volta de 2006 a 2008, na época do Orkut, estreitamos vínculos. Por meio da pregação da palavra eu tinha acesso a igrejas, a bairros e a pessoas com quem, de outro…
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Antes da primavera
O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar e, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto de alvenaria inacabada. Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita se materializou. Alguém da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir. O convite soou como um…
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Sístole e diástole
Eu habito simultaneamente o agora e o além, navegando em um fluxo que desconsidera as fronteiras entre o presente e o eterno. Sou um movimento de sístole e diástole, uma passagem constante entre o que fui e o que ainda está por vir. Preso ao momento e impulsionado pela vastidão, carrego essa alternância onde cada passo revela não apenas o que sou, mas a integridade do que estou me tornando. Nesta travessia, procuro anular o peso da hostilidade alheia e dissolver as barreiras que tentam me acorrentar ao desassossego. Escolho repousar na frequência da minha própria voz. Ela deixou de ser apenas som para se tornar o meu refúgio, o…
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A caneta que escreve o valor
Existe uma violência silenciosa que não se traduz em golpes, mas em insinuações e na presença sufocante de quem habita a obsessão pelo domínio. É a figura que se vale da hierarquia de crachá para projetar uma sombra sobre o outro, por meio de um olhar que tenta desautorizar e de um esmagamento que nunca precisa tocar ninguém. Não é apenas ocupação de espaço: é a intenção de punir a autenticidade alheia, e o incômodo com aquilo que não se consegue controlar. Nesse tribunal das aparências, características deixam de ser características e viram alvos. A cor da pele e a fé de alguém passam a ser lidas como demérito por…
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Andaime
Ser escolhido como o provisório pode soar como uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade e uma espera amarga até que o definitivo ocupe o lugar. Mas essa leitura ignora a profundidade do gesto. Há uma sabedoria em aceitar a interinidade, porque escolhas nunca são neutras. Ser o provisório é revelar uma força que o permanente raramente exige: a coragem de ser a resposta quando o futuro ainda é uma neblina. Assumir esse papel significa que, no momento crítico, você se apresentou como a solução para um vazio que não podia esperar. É um ato de resistência contra a neurose da permanência, um sinal de que, mesmo sem…
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Levantou-se para fugir
A ordem divina em Jonas 1.2 é mais que uma instrução de postura. Deus convoca o profeta para a urgência de Nínive, e o clamor exigido não é apenas juízo: é convite ao arrependimento diante de uma maldade que subiu. Em Sua santidade, Deus não é observador passivo. Vê a corrupção como ferida viva, e ainda assim prefere o envio do profeta à execução da sentença. Contudo, Jonas responde com obediência cínica. Ele se levanta, mas para fugir. É a meia obediência, que nada mais é do que rebeldia fantasiada de movimento. E aqui o capítulo revela a sua arquitetura. O homem que recebeu ordem de se levantar passa o…
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Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…





























